Afirmar a diversidade e a solidariedade: tarefas urgentes após Dia Nacional da Visibilidade Lésbica

Neste dia nacional da visibilidade lésbica, 29 de agosto, tivemos de tomar a difícil decisão de sair ou não às ruas para nossas tradicionais marchas, panfletagens e outras atividades públicas. Sabíamos não só dos riscos da pandemia, mas também da necessidade de guardar esforços para a realização de atos massivos em um contexto em que as ruas, infelizmente, foram tomadas de ideais fascistas e de extermínio. Por essas duas razões, a maior parte dos movimentos lésbicos optou por atividades presenciais simbólicas ou virtuais, com grande apelo para ações artísticas e culturais, assim evitando uma maior propagação do vírus e, ao mesmo tempo, garantindo encontros e integração de nossas militantes.


Cabe ressaltar que a ideia de um Dia Nacional da Visibilidade surge do Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), em 1996, ou seja, faz parte de uma história bastante recente de nosso país. De lá para cá, com o crescimento das paradas livres, das manifestações feministas e outras ações nesse bojo, temos visto com mais frequência espaços que afirmam a sexualidade lésbica e combatem frontalmente todo tipo de discriminação. Ainda assim, seguimos sustentando a necessidade de uma data como esta porque, mesmo em um meio tão diverso como o dos movimentos LGBTQIA+, a lesbianidade ainda recai na invisibilidade. Como efeito mais concreto disso, apenas a título de exemplo, a população tem pouquíssimo ou nenhum acesso à informação sobre sexo seguro entre mulheres, além de ter poucos canais seguros de denúncia quando sofre-se algum tipo de violência.


Já faz alguns anos que o movimento lésbico brasileiro tem se preocupado, cada vez mais, com a construção de redes de solidariedade e de espaços seguros para que possamos conviver com dignidade, respeito e felicidade não só entre nós mesmas, mas perante a sociedade no geral. Para isso ser possível é que começamos a pautar nossas demandas nas mais diversas instituições aonde estamos, sejam de estudo ou de trabalho, tanto quanto em nossas famílias ou nos bairros em que vivemos. Alguns exemplos dessas pautas são a fundamental bandeira do movimento feminista latino-americano para uma educação sexual integral nas escolas, com a intenção de evitar a naturalização da violência e a formação de agressores; bem como por mais empregos com direitos trabalhistas básicos, como a estabilidade e a proteção ao assédio.


Vocês podem estar se perguntando "o que tem a ver uma pauta econômica com a questão da sexualidade?", e é justamente este o tema que precisa estar em evidência neste nosso trágico ano de 2021. Não suficientemente as mais de 500 mil mortes devido à falta de políticas de prevenção ao contágio do COVID 19, sobretudo diante de um escândalo das vacinas protagonizado por Bolsonaro e seus aliados, as meninas e as mulheres lésbicas pedem socorro diante do aumento da desigualdade e do avanço do neoconservadorismo. Especialmente a juventude lésbica, isto é, adolescentes e jovens adultas na faixa dos 14 aos 25 anos, cujo poder econômico para sair de casa muitas vezes é inexistente e, portanto, tendem a ficar reféns das regras das suas famílias e comunidades, estão em profundo sofrimento graças à legitimidade que setores neoconservadores estão recebendo para reproduzir condutas de aniquilação da diversidade sexual e de gênero. Sabemos bem o quanto o aumento da desigualdade social, do desemprego, e a falta de alternativas de renda atingem todas as idades, mas, com um tempo de busca pelo primeiro emprego super elevado - inclusive, jogando grande parte das trabalhadoras para a informalidade -, a autonomia dessas meninas e mulheres reduz drasticamente.


Justamente por isso, na agenda dos movimentos de diversidade sexual e de gênero deve haver lutas não apenas pelo reconhecimento das diferenças de gênero e sexualidade como constituintes das múltiplas formas de ser humano, como também lutas pela igualdade material da nossa população. A propósito, na esteira do fortalecimento do nosso movimento, muitas empresas têm aberto suas portas para contratação de "corpos diversos", no sentido de mostrarem-se aliadas da diversidade. Sem dúvidas, é muito importante que a diversidade seja reconhecida em todos os lugares e possa-nos abrir portas em vez de fechá-las, embora simplesmente garantir algumas vagas de trabalho em um contexto onde há milhões de desempregados, sendo que o lucro de muitas dessas empresas é de patamar milionário, é um cálculo que não podemos aceitar passivamente. A inclusão em um sistema tremendamente desigual pode ser uma solução imediata de sobrevivência, desde que não percamos de vista um horizonte que supere tamanha exploração e barbárie.


Por fim, aproveitando a nossa Semana da Visibilidade Lésbica, que tal buscarem conhecer coletivos e movimentos que trabalhem com essa temática? Sim, você, independentemente da sua sexualidade ou gênero. Às vezes, o mero compartilhamento de informação pode ser a abertura de um caminho para uma pessoa encontrar espaços mais acolhedores e seguros para existir nesse mundo tão cheio de dificuldades. Precisamos de muito mais do que isso, é evidente... Porém, são tempos de propagar solidariedade, seja ela qual for. Solidarize-se com nossa causa você também.


Marianna Rodrigues é psicóloga, integrante da Coordenação Nacional do Coletivo Feminista Classista Ana Montenegro e militante do PCB


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