Aspectos Presentes no 3J em Goiás

Atualizado: 20 de jul. de 2021

A manifestação do último dia 03 de julho (3J) – terceiro Dia Nacional de Mobilização – definitivamente consolidou as jornadas pelo Fora Bolsonaro iniciadas nos 29M e 19J. Ainda que tenha outras pautas subjacentes, como a luta contra a Reforma Administrativa e as privatizações da Eletrobrás e dos Correios, a jornada 3J seguiu pautada pelas bandeiras do Fora Bolsonaro, renovação do auxílio emergencial de 600 reais e vacina já! As ruas exigem comida no prato, vacina no braço e Fora Bolsonaro!


Foto: Igor Barreto

Realizado um dia após a ministra Rosa Weber determinar a abertura de investigação contra o presidente por prevaricação no caso da vacina indiana Covaxin e três dias depois do super pedido de impeachment, o ato do 3J se deu em meio a uma das mais agudas crises políticas desde o golpe de 2016, responsável por instaurar, através de “aproximações sucessivas”, um regime ilegítimo, hoje amplamente reconhecido como um governo de criminosos que promovem mentiras e ameaças, manipulam afetos, e lucram com a fome e a morte da população brasileira.


Os movimentos populares se mantiveram na rua no 3J


Em Goiás, o 3J foi uma mobilização ampla e multitudinária. A presença de trabalhadores e trabalhadoras mobilizados nas bases das entidades sindicais e dos movimentos sociais foi numerosa e contundente, apesar de um pequeno decréscimo da participação do público em geral em relação às jornadas anteriores. Para Gilvan Rodrigues, da Coordenação Estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), o 3J teve o destaque da juventude na sua composição, o que representaria uma grande oportunidade de formação de quadros e renovação política para as forças populares organizadas. Ele realçou ainda a grande participação do movimento feminista no ato, o que também foi apontado por Cintia Dias, assessora sindical do Sindicato do Trabalhadores nas Indústrias Urbanas no Estado de Goiás (STIUEG) e dirigente estadual do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL).


Foto: Igor Barreto

Na avaliação de Arthur Ramos, da Coordenação Estadual da União da Juventude Comunista (UJC), o 3J teve uma presença maior na internet, quando comparado ao 29M e ao 19J. A data teria sido impulsionada virtualmente após o 19J, quando, pelo protesto de muitas pessoas, a indicação da mobilização apenas para o 24 de julho (24J) foi contestada. Todavia, pela brevidade de seu anúncio, a agitação nas redes parece ter tido menos capacidade de influenciar a ida de militantes e ativistas para a rua.


A mobilização do 3J manteve a pauta Fora Bolsonaro como catalisadora do descontentamento social. A luta contra o projeto do golpe de Estado de 2016, concretamente materializada na pauta da “reversão das contrarreformas neoliberais” que destruíram direitos como os previdenciários e trabalhistas e que restringem a representação política da classe trabalhadora, ficou perifericamente situada na mobilização.


Cintia avalia que o movimento sindical não tem conseguido fortalecer essas pautas de mobilização. O 3J reiterou o 29M e o 19J, permanecendo em segundo plano as palavras de ordem propriamente sindicais, contra as privatizações de empresas públicas (Eletrobrás, Correios) e contra a Reforma Administrativa. No seu julgamento, “as forças que integram a esquerda socialista, anticapitalista e anti-imperialista querem, mas são frágeis, não têm a força para pautar; as forças políticas situadas na centro-esquerda, tem força para pautar, mas não querem”


O 3J expressou, em grau equivalente ao 19J, a grande aceitação da população quanto à mobilização e as suas pautas. Ângela Cristina, integrante da Coordenação do Comitê Goiano de Direitos Humanos Dom Tomás Balduíno, aponta que essa aceitação popular se revelou em frequentes manifestações de apoio vindas de populares que se encontravam em lojas, apartamentos, ônibus e carros. Isso estaria ligado aos escândalos de superfaturamento na compra de vacinas e às mortes evitáveis por Covid-19, sendo o Governo Bolsonaro-Mourão responsabilizado, bem como o fato das mobilizações apresentarem pautas que dialogam diretamente com as necessidades e demandas imediatas da população, como alimento, moradia, vacina e emprego.


Gilvan compreende que teve curso a superação da grande resistência que havia em relação às manifestações no período que se seguiu ao golpe de Estado de 2016, com rechaços e inclusive agressões aos militantes nas ruas. Esse apoio que grande parte da população manifesta nas ruas pode levar ao fortalecimento da pauta Fora Bolsonaro e a sua derrota em 2022, mas também pode proporcionar um contexto mais favorável para a expansão da organização da classe trabalhadora pela base, no campo e na cidade, em médio prazo. Realça esse potencial, embora reconheça que essa aceitação é ainda muito incipiente e que se manifesta em um quadro no qual as organizações de esquerda revolucionária ainda são frágeis em termos da sua presença junto às camadas populares.


Arthur afirmou que, no âmbito do Fórum Goiano, se faz presente em diversos militantes a compreensão de que somente fazer mobilizações basta, o que evidencia uma visão utilitária e estritamente eleitoral do Fora Bolsonaro. Há uma subestimação de trabalho organizativo, o que pode levar a uma reedição das “Jornadas de Junho de 2013”, com as mobilizações sendo tomadas de assalto pela direita. Daí, no seu julgamento, a ocorrência de um menor número de atividades organizativas na construção do 3J, inclusive quando comparado ao 19J. Por outro lado, o estudante também reconhece uma contradição, reiterada por diversos militantes, que contrapõe a escolha da concentração do ato como lugar e momento de intervenções políticas sistematizadas, à escolha da passeata como lugar e momento de agitação política.


Aspectos presentes na construção do 3J


A construção do 3J no âmbito das reuniões do Fórum Goiano foi mais tensa que habitualmente. Tensão que também se manifestou no próprio início da passeata, quando o carro de som indicado para estar à frente com a coordenação da agitação política e cultural, após ampla discussão em reunião preparatória e democraticamente definida, estava sendo colocado atrás de outro carro de som efetivamente hegemonizado por uma dada entidade e/ou central sindical. Ação desarticulada, mas que foi veementemente criticada na reunião de avaliação do 3J realizada no último dia 08 de julho.


Gilvan Rodrigues externou preocupações quanto aos encaminhamentos recentes, sobretudo com a dinâmica organizativa da construção dos atos. Segundo ele, “o Fórum Goiano acumulou muito, se transformou em um espaço muito importante para a realização de lutas unitárias. Todavia, no último período tem patinado na construção das mobilizações, com gasto enorme de energia em torno de questões como coordenação do carro de som, momento de falas e de agitação política, posicionamento do microfone durante as manifestações e presença da cultura. Isso representa disputas de protagonismo no Fórum, que podem estar determinadas por disputas eleitorais, podendo comprometer a unidade que o período da luta de classes tanto requer”.


Apesar dessas disputas, o peso organizativo das forças políticas na construção do 3J foi menor quando comparado ao 29M e 19J, tanto em termos de estruturas empregadas, quanto de seus militantes organizados e apoiadores envolvidos na sua construção. Para Arthur, em que pese todas as forças políticas terem apresentado alguma fragilidade, essa realidade foi mais evidente em termos da baixa presença, enquanto partido político, do PT e do PCdoB. Leitura igualmente realizada por Cintia Dias.


A assessora sindical do STIUEG avalia que o PT e o PCdoB pareciam não totalmente engajados como partidos na construção do 3J, diferentemente do 29M e do 19J. Talvez em função de uma tática que alimenta perspectivas de não avançar em uma radicalização das mobilizações que afastariam articulações político-eleitorais com setores da centro-direita, e/ou em função de aspectos ligados a dificuldades organizativas, realidade também presente nos demais partidos de esquerda. Ângela Cristina também reconheceu a tímida presença dos símbolos do PT na mobilização do 3J, em que pese um grande número de militantes e ativistas vinculados ao partido estarem presentes, mas atribuiu às dificuldades organizativas.


Chamou mais a atenção a presença de grande número de militantes e ativistas do PSOL e de sua identidade visual composta por faixas, bandeiras e camisetas do partido, portadas por dezenas de militantes. Cintia Dias, que também é dirigente estadual do PSOL, realçou que esta atuação partiu de uma avaliação crítica quanto a uma atuação tímida que o partido realizou no 19J, dando lugar a ações concretas que se materializaram nessa grande presença no 3J.


Para a Agência de Notícia do Cerrado (ANC), os aspectos em tela têm de ser apreendidos de forma mais abrangente. Inicialmente, conforme indicado no texto anterior de acompanhamento dessa jornada de mobilizações, publicado pela ANC, esses aspectos internalizam disputas táticas, grosso modo, entre a tática (atualmente hegemônica) de desgastar Bolsonaro para derrotá-lo em 2022 mediante articulação com setores de centro-direita; a tática (em franco crescimento) de articular lutas em perspectiva classista que culmine em um programa político-eleitoral avançado que seja capaz de unificar eleitoralmente o campo popular; e a tática (em crescimento, mas a partir de uma base muito restrita) de ofensiva classista em permanência na rua sem subordinação ao calendário eleitoral. As disputas táticas estão expressas, entre outras, no peso dado às bandeiras de luta, no formato da mobilização, na sua dinâmica de realização, no peso que as forças políticas dão a cada mobilização e nas posições quanto à questão das alianças com forças da centro-direita. A essas disputas políticas táticas, se somam aspectos típicos de “pequena política”, como o hegemonismo partidário e o protagonismo autoritário-oportunista de diretorias de determinadas entidades.


Dimensões e capilaridade do 3J


Como balanço geral, o 3J teve uma participação estimada em 800 mil manifestantes, entre trabalhadores, trabalhadoras e juventude, presentes em aproximadamente 350 cidades brasileiras dos 26 estados e do Distrito Federal, e em algumas cidades no exterior. De acordo com o jornal Brasil de Fato (04/07/2021) cidades como Berlim (Alemanha), Genebra (Suíça), Dublin (Irlanda), Cambridge (Inglaterra) e Nova York (Estados Unidos), tiveram manifestações por Fora Bolsonaro em frente às respectivas embaixadas brasileiras. Mobilizações noticiadas por diversos jornais internacionais, como The New York Times, Global Times, The Guardian, Granma e Al Jazira.


Em Goiás, com base em informações e imagens recolhidas do Fórum Goiano, as manifestações envolveram cerca de 8 mil pessoas, com mobilização de aproximadamente 6 mil na passeata e carreata ocorridas em Goiânia, a partir da Praça Cívica em direção à Praça do Trabalhador, e outras duas mil em concentrações, atos simbólicos e carreatas ocorridas em outras cidades, como Anápolis, Aurilândia, Caldas Novas, Catalão, Ceres, Cidade de Goiás, Formosa, Goianésia, Ipameri, Itapirapuã, Itumbiara, Jataí, Pirenópolis, Porangatu, Rio Verde e São Luís de Montes Belos.


Conforme já assinalado, o 3J apresentou um recuo quantitativo, o que representaria aproximadamente 15% menos pessoas na mobilização de Goiânia, em relação ao 19J. Todavia, o ato realizado se impôs como uma grande vitória em termos de engajamento popular do povo goiano contra as forças reacionárias, em face da realidade histórica e social de Goiás. Conseguiu ampliar o movimento para o interior do estado, apesar do tempo mais reduzido para a sua construção, da referida redução de peso organizativo das forças políticas e as dificuldades quanto à manutenção do volume de recursos financeiros e materiais empregados.


Foto: Igor Barreto

Questionado acerca da pequena presença das organizações do campo na mobilização do 3J em Goiânia, que contou basicamente com 40 militantes do MST inseridos em atividades de segurança durante a realização da passeata, Gilvan Rodrigues ponderou uma série de questões no que tange ao MST. Acentuou que o Movimento tem debatido internamente a necessidade de fortalecer as mobilizações no interior do estado, com efetiva participação em Caldas Novas, Catalão, Formosa, Rio Verde, Jataí, Cidade de Goiás e Pirenópolis. Segundo ele, há contextos em que o MST constrói com articulações mais amplas, junto a diversas forças políticas e entidades, em outros articula suas bases para tarefas inerentes ao movimento. Retornando à participação do MST na passeata na capital, salientou que, para além da maior atenção que o movimento está dispensando para a construção da jornada de mobilização no interior do estado, as limitações que a pandemia impõe tornam o deslocamento de militantes em ônibus inviável, tendo em vistas os riscos de contaminação.

Cintia Dias salientou a percepção de que “quem estava na rua parecia ter uma leitura da conjuntura, uma compreensão da importância de estar na rua, o que compensou as dificuldades de mobilização”. Essa leitura parece coadunar com a afirmação de Arthur Ramos, segundo a qual “o 3J surgiu de forma mais espontânea quando comparado ao 29M e ao 19J”. Essas afirmações podem indicar maior influência dos escândalos de corrupção envolvendo o Governo Bolsonaro-Mourão na compra fracassada da vacina indiana Covaxin, mas também uma maior consciência política quanto à urgência de estar na rua para derrubar esse governo ou desmoralizá-lo perante a opinião pública.


A questão da cultura e arte na construção do 3J


A inserção da cultura e da arte nas manifestações de rua em Goiânia, já presente no 19J, foi mais ampla no 3J. Arthur Ramos compreende ter ocorrido certa despolitização à medida que a cultura assumiu certa centralidade no ato.


Cintia, por sua vez, realçou que o maior peso que a cultura assumiu no 3J em parte pode ser compreendido pela própria situação vivida pelos trabalhadores da cultura, que desde a eclosão da pandemia vivenciaram cortes de recursos e queda brutal de atividades, prejudicando suas receitas. A inserção da cultura e dos seus trabalhadores na construção do movimento proporcionaram um espaço aberto à cultura e à arte. Nesse processo, assumiram destaque artistas de circo e cantoras goianas, muitos deles vinculados ao Fórum Goiano de Cultura.


Ângela Cristina compreende que as pautas sindicais, populares e estudantis e as pautas culturais têm que estar presentes nas mobilizações, mas integradas e articuladas. Por isso, em uma reunião do Fórum Goiano de preparação do 3J, assumiu posição contrária à separação de um carro de som para a ação de agitação política, em sentido estrito, e de um carro de som para a agitação político-cultural, no que foi acompanhada pela maioria dos participantes. Compreende que a jornada de mobilização, ao tratar politicamente de questões como a fome e a morte, do ponto de vista sindical, apresenta possibilidades, mas convive com certos limites para com a comunicação dirigida para as grandes massas populares que vêm à mobilização. As mesmas questões trabalhadas politicamente pela cultura, por exemplo, mediante simbologia e mística, dialogariam mais com a população.


Assim, é imprescindível compreender as distinções de intencionalidade e especificidade características, por exemplo, do movimento sindical e popular – presente no discurso corporativo – e do movimento de cultura – presente nas linguagens, no corpo e na simbologia – superando qualquer perspectiva de prioridade ou hierarquia entre agitação política e agitação cultural.


Gilvan Rodrigues também assinalou como extremamente positiva a incorporação das atividades culturais nos atos do 19J e do 3J. Compreende que simbologia, palavras de ordem e agitação alcançam a população que acompanha o ato. Ele ainda relatou o contundente efeito simbólico que um quadro teatral, no qual uma pessoa se caracterizava como a morte com a faixa presidencial, desencadeou durante a passeata. Segundo ele, “nossa cultura traz muitos elementos, por exemplo, em torno da comida e da fome. Pense no grande impacto que 100 pessoas caminhando com um prato vazio na mão exerceria sobre quem acompanhasse a caminhada. Provocaria uma leitura imediata naquela parte da população que estivesse assistindo à caminhada.” Todavia, defende que essa construção cultural, com uso de elementos simbólicos, teria efeitos infinitamente maiores se estivessem inseridos em uma construção coletiva, organizada e previamente planejada.


A necessidade de testar outras táticas e lutas


Em entrevista concedida recentemente à revista CartaCapital (04/07/2021), o deputado federal e pré-candidato à Presidência da República, Glauber Braga (PSOL-RJ), defendeu a necessidade de que as mobilizações nas ruas sejam “combinadas com uma articulação de greve com os mais variados setores, nas mais variadas regiões. Essa é uma necessidade que a gente não pode perder de vista e que tem que continuar a ser trabalhada.” E continua: “Lembremos que, por exemplo, eles querem aprovar nos próximos dias a privatização dos Correios, a Reforma Administrativa. Se esse governo não sente uma mobilização que de fato faça ele recuar, eles continuam avançando com essa política de desmonte. (...) Combinar mobilização de rua com greve, olhando para outras experiências internacionais, é um meio eficaz para fazer com que o governo Bolsonaro possa ser derrotado.”


Cintia Dias, provocada acerca das posições que Glauber Braga apresentou na entrevista, concorda com a necessidade de articulação entre a jornada de mobilização e a realização de greve geral, mas indicou uma série de dificuldades para a sua efetivação, como os elevados índices de desemprego, a crise vivida pelas entidades sindicais, a falta de engajamento das centrais sindicais em torno dessa articulação e as limitações quanto ao avanço das lutas que os partidos de centro-esquerda e suas táticas, de olho nas articulações político-eleitorais para 2022, nos impõem.


Gilvan Rodrigues, também provocado para se posicionar sobre a referida articulação, apresenta-se animado com a construção unitária realizada no Fórum Goiano há alguns anos: “há um acúmulo político de cultura de unidade, ainda que aqui e acolá possa ter algum problema, mas estamos avançando”. Mas, reitera, “temos que testar outras táticas, de mobilizações diárias, construídas com base em pautas específicas de movimentos, categorias, coletivos e assim por diante. Melhor que as mobilizações unificadas fossem um momento de luta entre tantas outras lutas.” E concluiu que “a própria greve geral poderia ser o culminar, um passo mais maduro”, resultante de “acumulações locais, regionais e de categorias, ou seja, uma tática complementar que culminasse na tática da greve geral”.


A ausência dos black-blocs


Deve-se registrar que os anarquistas e autonomistas compuseram um pequeno bloco durante a referida jornada de mobilização, que pode ter variado entre 30 e 50 militantes. Todavia, a tática black-bloc se fez ausente, até o momento, nessas mobilizações.


Em que pese a tímida presença do bloco anarquista e autonomista e a ausência da tática black-bloc, um “espectro ronda a jornada de mobilização”. Trata-se do “fantasma black-bloc”: uma hora, chega a notícia de que “estão reunidos em tal lugar”; outra hora, de que “chegaram informações que atacarão o carro de som da mobilização”; em outro momento, de que “planejam depredar lojas durante a passagem por tal avenida”; e não menos ausente, a ideia de que “não podemos deixar que uma passeata ordeira seja manchada por quebradeiras”.


Nesse contexto, marcado pela ampliação de um apoio social à derrubada do Governo Bolsonaro-Mourão e de clara oposição à política antipopular desse governo, ações de depredação do comércio representariam grande retrocesso para a ofensiva política projetada pela jornada de mobilização em curso, pois seriam exploradas pelo sistema de mídia e entidades da sociedade civil ligadas ao capital para jogar a população contra o movimento.


Ainda a questão da afirmação da bandeira vermelha na jornada de mobilização


A jornada de mobilização foi confrontada com a participação de partidos e movimentos de centro-direita e de direita, a exemplo, respectivamente, do PSDB e do MBL. São posições políticas profundamente vinculadas ao golpe de Estado de 2016 e ao seu projeto reacionário, expresso nas políticas ultra-neoliberais voltadas para a retirada de direitos, o aprofundamento da privatização e a restrição da representação política da classe trabalhadora. E mais, mantém-se como base de sustentação política da agenda econômica e social do Governo Bolsonaro-Mourão-Guedes. Em São Paulo, a expulsão de integrantes do PSDB por militantes do Partido da Causa Operária (PCO) presentes na mobilização do 3J é uma evidência do que está por vir. Essa questão seguramente não culminará em uma visão razoavelmente acordada no Fórum Goiano.


Cintia Dias, inicialmente, compreende que o Fórum Goiano é uma instância de frente ampla do campo popular; é uma instância da classe trabalhadora. Portanto, é radicalmente contrária a participação de partidos como PSDB, de centro-direita, ou mesmo do PDT e do PSB goiano, posto que a posição formal desses partidos em termos políticos e ideológicos à centro-esquerda no plano nacional, contrasta, em Goiás, com a efetiva composição política e ideológica desses partidos no campo da centro-direita. Ela compreende que, “se há um lugar que possam integrar, seria no Movimento Fora Bolsonaro”. Quanto às mobilizações de rua construídas pelo Fórum Goiano, também é contrária a que se abram espaços para a direção e direcionamento do movimento. Todavia, embora tenha preocupação com a presença de partidos como o PSDB e de movimentos como o MBL, tendo como referência a memória das Jornadas de Junho de 2013, defende que “não devemos expulsá-los do movimento”.


Ângela Cristina não foi categórica quanto à participação ou não de partidos de centro-direita (PSDB, MDB) e formalmente de centro-esquerda (PDT, PSB) no Fórum Goiano, durante o processo de construção da jornada de mobilização. Alerta para o fato de que lideranças políticas desses partidos já se fizeram presentes em algumas das três mobilizações, como a vereadora de Goiânia Aava Santiago (PSDB), o deputado federal por Goiás Elias Vaz (PSB) e o vereador de Aparecida de Goiânia Willian Panda (PSB). Também alerta para anterior mobilização em torno de pautas pontuais, a exemplo da suspensão de ações de despejos, quando foi possível articular apoio nacional e regional com direções de partidos (PSB, MDB) ou setores de partido (PDT). Enfim, para ela, os cenários variam, podendo determinar reposicionamentos.


Na perspectiva da linha editorial da ANC, uma instância classista de Frente Ampla (ou Frente Única) da classe trabalhadora não pode admitir forças políticas vinculadas ao campo do capital, que ataca direitos da nossa classe, na sua composição, ou co-dirigindo mobilizações e lutas que construímos. Do que decorre, na perspectiva desta agência, que partidos e movimentos de centro-direita e extrema-direita não podem integrar instâncias políticas classistas que a classe trabalhadora constrói em Goiás, com destaque para o Fórum Goiano, ou mesmo co-dirigindo mobilizações e lutas que realizamos, a exemplo da atual jornada de mobilização. Nossa organização e mobilização vão muito além do Fora Bolsonaro, incluindo a luta contra o projeto do Golpe de Estado de 2016 e o socialismo em perspectiva histórica.


13 de Julho: quarto dia nacional de mobilizações


Foto: Igor Barreto

A mobilização do 13J foi basicamente um novo dia de lutas organizadas em todo o país, com atividades de ruas, atos político-culturais, panfletagens e lives. Efetivamente, cumpriu o papel de assegurar a continuidade da jornada de mobilização, com o objetivo de não deixar um vazio político até a construção da grande mobilização prevista para o dia 24 de julho (24J). Em Goiânia, foi realizado o ato político-cultural na Praça do Bandeirante, das 16h às 18h30, com a participação de aproximadamente 150 militantes de diversas forças políticas, entidades e movimentos sociais populares.



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