Conjuntura e as Mobilizações de Maio e Junho em Goiás

Atualizado: 11 de jul. de 2021



A conjuntura política vivida pelas entidades e movimentos sociais populares se modificou na Região Metropolitana de Goiânia e mesmo em diversos municípios de Goiás. Efetivamente, o marasmo em termos de mobilizações de massas nas ruas, na sequência dos “Tsunames da Educação” dos dias 15 e 30 de maio de 2019, interrompido apenas pela modesta - apesar de contundente - mobilização antifascista na região central de Goiânia, no dia 07 de junho de 2020, somente foi superado com as mobilizações dos dias 29 de maio (29M) e de 19 de junho (19J) de 2021. Pode-se questionar acerca da amplitude dessas novas mobilizações, da sua capacidade de permanência e crescimento, ou mesmo da sua plataforma programática, mas não há como colocar em dúvida que essa conjuntura vivida pelas entidades e movimentos recolocou na ordem do dia condições objetivas e subjetivas de massificação das lutas de resistência nas ruas.


A retomada da ofensiva pelos movimentos populares


Desde o golpe de Estado empresarial e parlamentar de 2016, trabalhadores, trabalhadoras e juventude passaram a sofrer um ataque brutal das classes dominantes contra direitos sociais e de representação política. A desarticulação dos serviços públicos com a aprovação da Emenda Constitucional do Teto dos Gastos (EC 95/16), a destruição de direitos conquistados pela classe trabalhadora brasileira ao longo de grandes lutas travadas no século XX, por meio da Reforma Trabalhista (Lei 13.467/17) e a restrição dos direitos previdenciários para amplos setores sociais que dependem da própria força de trabalho, por meio da Reforma da Previdência (EC 103/19), entre outros retrocessos, erodiram rapidamente as condições materiais de vida de amplos setores da classe trabalhadora.


Mesmo antes da pandemia e de suas consequências sociais e econômicas, a projeção do desmonte do Estado já implicava impactos negativos de longo prazo. A Reforma Trabalhista, por exemplo, ao alterar significativamente a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), remeteu progressivamente a classe trabalhadora para níveis e condições de existência material equivalentes aos do início do século XX.


Os ataques à representação política ocorreram por meio do reagrupamento da direita tradicional e da centro-direita, acompanhados de uma campanha político-ideológica orquestrada pelo neoliberalismo e apoiada na ascensão de uma extrema direita virulenta. A redução da representação política da esquerda na sociedade e nos diversos campos de articulação social e de governo, nas esferas municipal, estadual e federal, a exemplo das eleições de 2016, 2018 e 2020, se fez em função da restrição, quando não extinção, de direitos básicos e da sistemática redução do custo da força de trabalho, ampliando as condições de pressão do capital rentista, proprietário de títulos da dívida pública, e a capacidade do capital “produtivo” intensificar a extração da mais-valia dos/as trabalhadores/as, se apropriando do valor gerado por aqueles que integram a classe produtora.


Mesmo antes da pandemia e de suas consequências sociais e econômicas, a projeção do desmonte do Estado já implicava impactos negativos de longo prazo.

A resistência aos ataques das classes dominantes contra direitos sociais e de representação política foi expressiva, com contundentes manifestações, dessas que entram para a história. As mobilizações de 29 de novembro e de 13 de dezembro de 2016, contra a aprovação da PEC-55 (Projeto original da Emenda do Teto dos Gastos Públicos), a Marcha Ocupa Brasília de 24 de maio de 2017, reunindo cerca de 200 mil pessoas contra as Reformas Trabalhista e da Previdenciária, e a Greve Geral de 30 de junho de 2017, foram capazes de levar trabalhadores e trabalhadoras e a juventude para as ruas, mas, ainda, não foram amplas o bastante para permitir uma contra ofensiva sólida por parte da classe trabalhadora.


Aspectos como o linchamento político, ideológico e moral das chamadas esquerdas, perpetrados pelo conluio estabelecido entre sistema de mídia e setores das corporações burocráticas do Estado, como Judiciário, Ministério Público, Cúpula Militar e Polícia Federal, bem como a exclusão de amplos setores da população do usufruto de muitos dos direitos defendidos, a exemplo dos trabalhistas, concorreram decisivamente para frustrar a transformação das mobilizações em uma contraofensiva eficiente na defesa de direitos sociais e políticos em progressiva extinção ou restrição de usufruto. Conforme reportado pelo Sindicato Nacional das Instituições de Ensino Superior (Andes, 1/12/2017), recuos políticos por parte de diversas centrais sindicais, em momentos cruciais como a suspensão da Greve Geral de 05 de dezembro de 2017, também concorreram, em alguma medida, para desarticular a elevação das lutas de resistência a um patamar superior de mobilização.



Créditos: Ariel Franco


A retomada das ruas em Maio e Junho de 2021


Ouvido pela Agência de Notícias Cerrado, João Pires, Coordenador de Finanças do Sindicato dos Trabalhadores Técnico-Administrativos em Educação das Instituições Federais de Ensino Superior do Estado de Goiás (SINT-IFESgo) e Coordenador do Fórum Goiano em Defesa de Direitos, Democracia e Soberania, na perspectiva da compreensão da nova conjuntura das entidades e movimentos do campo popular, realçou o impacto do acirramento da crise vivida pela sociedade brasileira. Para ele, é visível o recente aumento da carestia e do desemprego (14,8 milhões), desalento (6 milhões) e subemprego, multiplicando o número de pedintes e vendedores nas esquinas, que somados ao gigantesco número de mortes pela pandemia, amplia extraordinariamente o grau de insatisfação social.


João Pires também salientou a indignação, sobretudo junto a diversos setores organizados, com o aumento dos despejos por parte do poder público e com a ausência de uma política de moradia do Governo Caiado, com famílias sendo jogadas literalmente nas ruas. Sobre as mobilizações de rua, o Coordenador do Fórum Goiano opina que os preparativos e efetiva realização das comemorações do 1° de Maio foram muito importantes para esta conjuntura. As lives realizadas nacional e regionalmente com lideranças políticas e artistas foram capazes de atingir muitos setores da sociedade e organizar as expressões de descontentamento social com o objetivo de retornar coordenadamente às ruas, tomando-se os devidos cuidados sanitários.


Por sua vez, Helga Martins, presidente da Associação de Professores de Jataí-Andes (ADCAJ/Andes), salientou que os índices de desemprego, precarização e insegurança alimentar são ainda mais graves no interior do estado. Esse quadro de retirada de direitos que contribui diretamente para que se chegue a mais de 500 mil mortes, em sua maioria evitáveis, causadas por uma pandemia amplificada pela funesta estratégia de “imunização de rebanho por contágio”, desembocou em uma crise política sem precedentes precipitada pela Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia, conhecida como CPI da Covid ou CPI do Genocídio. A austeridade criminosa defendida pelos ultraliberais no governo ilegítimo de turno serviu de contexto mórbido para o aumento exponencial da mortandade, do grau de insatisfação popular e resultou em incremento significativo das mobilizações de ruas.


A presidente da ADCAJ, embora também reconheça a importância das movimentações do 1º de Maio para a conjuntura, salientou o mal-estar que o ato nacional unificado promovido pela maior parte das centrais de forma virtual, com a participação de personalidades vinculadas ao golpe de Estado de 2016 e a seu projeto de austericídio, como Fernando Henrique Cardoso e Rodrigo Maia, deixou em uma parte do movimento sindical. Em Goiânia e em alguns municípios do estado, nota-se grande unidade na construção do dia do Trabalhador, com ações de solidariedade de classe integrando movimentos como Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento Camponês Popular (MCP), entidades, movimentos sindicais e populares urbanos, a exemplo da distribuição de cestas básicas, itens de higiene e equipamentos de proteção individual (EPIs) junto a inúmeras comunidades carentes atingidas pela crise econômica e sanitária.


Em meio a todo este drama social, o massacre na Favela do Jacarezinho efetuado por operação policial, na qual um agente e 28 suspeitos foram mortos, e a acusação de que dois homens teriam sido torturados e mortos por furtarem pacotes de carne em um supermercado na cidade de Salvador, levaram a Frente Nacional Antirracista e outras entidades e movimentos de luta antirracista a realizarem atos de protestos de rua no dia 13 de maio para pedir Justiça. Os atos também convertiam a data, instituída o Dia da Abolição da Escravatura, como data de mobilização e luta contra o racismo, o genocídio negro, as chacinas, e pela defesa da construção de mecanismos de controle social da atividade policial. Em Goiás, o ato ocorreu em frente a Secretaria de Segurança Pública de Goiás, com aproximadamente 50 pessoas.


Para Guilherme Martins, integrante do projeto Faz Arte de educação popular, as mobilizações de 13 de maio efetivamente exerceram uma influência importante, ainda que discreta, para a retomada das mobilizações de rua, pois materializou, mesmo com pequeno número de participantes, a retomada das mobilizações de rua interrompidas por observância das medidas de isolamento social impostas pela pandemia, depois dos atos que as torcidas anti fascistas haviam realizado em junho de 2020. Já Vinícius Gomes, militante do Comitê de Luta Contra o Golpe e Contra a Prisão de Lula, realçou aspecto relacionado à reorientação de direções de centrais sindicais e de entidades e frentes nacionais. Essas direções teriam sido pressionadas por dirigentes e militantes de entidades de base para que assumissem o retorno às ruas.


Sob a influência das comemorações do 1° de Maio e das mobilizações de 13 de maio, ocorreram várias atividades de mobilização diretamente construídas por entidades e movimentos que integram o Fórum Goiano ou recebendo o seu apoio. No dia 16 de maio ocorreu o ato político de defesa dos Correios na porta da sua sede administrativa, situada na Praça Cívica, no Centro de Goiânia, liderado pelo Sintect-GO, contando com a participação de entidades sindicais e outros movimentos de trabalhadores. No dia 20 de maio ocorreu o ato simbólico na Praça Cívica, com balões brancos, faixas e cartazes lembrando as vítimas fatais da Covid-19 em Goiás e cobrando maior valorização dos profissionais da saúde. Esse ato também marcou o lançamento da campanha “Eu Defendo a Saúde”, com vistas à defesa do SUS.


A mobilização do 29M teve como pauta central o Fora Bolsonaro e com ela catalisou o descontentamento social. Deve-se salientar que a comprovação da intencionalidade do Governo Bolsonaro em promover a equivocada e criminosa estratégia de “imunidade de rebanho” - protelando a aquisição de vacinas e sabotando medidas como o distanciamento social e o uso de máscaras, fatos amplamente divulgados pela CPI da Covid - foi determinante para a ida de centenas de milhares de pessoas às ruas. Também foi de grande relevância que a bandeira “Fora Bolsonaro” tenha assumido as manifestações.

Como balanço geral, em termos nacionais, as manifestações do 29M envolveram aproximadamente 420 mil pessoas, foram registradas em 213 cidades brasileiras dos 26 estados e do Distrito Federal, bem como em 14 cidades no exterior, de acordo com o jornal Brasil de Fato (30/05/2021). Em Goiás, as manifestações envolveram cerca de 7 mil pessoas, com mobilização de aproximadamente 6 mil na passeata e carreata ocorridas em Goiânia, a partir da Praça Cívica em direção à Praça do Trabalhador, e outras mil em concentrações, atos simbólicos e carreatas ocorridas em outras cidades como Jataí, Cidade de Goiás, Anápolis, Catalão, Ceres e Aurilândia.


[...] as manifestações do 29M envolveram aproximadamente 420 mil pessoas, foram registradas em 213 cidades brasileiras dos 26 estados e do Distrito Federal

A mobilização do dia 19 de junho ampliou a manifestação do descontentamento social nas ruas em pelo menos 25%, dando ainda mais relevância à bandeira Fora Bolsonaro. O registro de 500 mil mortes neste dia e a contestada vinda da Copa América para o Brasil, por meio de uma articulação diretamente conduzida pelo Governo Bolsonaro, também concorreram para aumentar o poder mobilizatório das entidades e movimentos envolvidos na construção dos atos. João Pires acentuou a importância que a plenária sindical e popular do Fórum Goiano, realizada no dia 16 de junho, assumiu para a construção dessa mobilização, onde exigiu empenho das entidades para mobilizar suas bases e foi capaz de trazer um público novo para esta instância, tendo a participação de mais de 100 lideranças de diversas categorias e municípios do estado, o que demanda aperfeiçoamento em termos da mobilização desta ferramenta política.


Ainda segundo o Brasil de Fato, em termos nacionais, a data foi marcada por manifestações que envolveram 750 mil pessoas. Atos de rua foram registrados em 400 cidades brasileiras dos 26 estados e do Distrito Federal, bem como em 17 cidades no exterior. Em Goiás, as manifestações do chamado 19J envolveram aproximadamente 10 mil pessoas, com mobilização de cerca de 7 mil em ato de rua que percorreu o mesmo trajeto do 29M, a partir da Praça Cívica em direção à Praça do Trabalhador, passando pela avenida Anhanguera, rua 4 e avenida Goiás, com concentrações, atos simbólicos e carreatas ocorridas em outras cidades como Anápolis, Aurilândia, Catalão, Ceres, Cidade de Goiás, Jataí, Pirenópolis e São Luis dos Montes Belos.


Guilherme Martins afirma que, embora essa mobilização não tenha apresentado um crescimento realmente expressivo em termos do número de participantes quando comparado com a do dia 29 de maio, teria alcançado um patamar organizativo superior, com atuação destacada de militantes que integram organicamente as forças partidárias de esquerda e os movimentos sociais. Do que decorre, ainda segundo ele, a existência de um grande espaço de vascularização do movimento para a base das entidades estudantis, limitado pelo ensino remoto das instituições de educação, e das entidades sindicais, com trabalhadores ainda muito inseguros quanto a participar de mobilizações no contexto de pandemia não controlada.


A presença do PSB e do PDT nas mobilizações do 29M e do 19J – partidos formalmente situados na centro-esquerda – chamou a atenção de diversas lideranças da esquerda socialista. Vinicius Gomes vê esses partidos construídos sobre profundas contradições, inclusive contando com quadros políticos tradicionalmente vinculados à direita tradicional e que se posicionam alinhados ao projeto do golpe de 2016, a exemplo do PDT goiano, com Flávia Moraes. Também compreende que não se pode atuar numa lógica segundo “se é contra a extrema direita, nos articulamos com essa força”. Seria mais acertado se orientar pelo classismo, demarcando distância, ao mesmo tempo, da extrema direita e da centro-direita, pois estão unidas na implementação do projeto do golpista. Ele foi categórico ao criticar o que chamou de “verde amarelização dos atos”, vendo inclusive setores da esquerda desejosos da vinda da direita para dentro das nossas mobilizações, como o MBL.

Considerando aspectos histórico-estruturais como as características da formação social goiana, as derrotas infligidas à classe trabalhadora ao longo do tempo e a consolidação do agronegócio em termos econômicos, políticos e ideológicos a partir dos anos 1960 e 1970, tem-se elementos que sobre-determinam possibilidades, níveis e qualidades de organização, mobilização e luta da classe trabalhadora e da juventude em Goiás. Em que pese o fato de que a conjuntura vivida pelas entidades e movimentos sociais do campo popular tenha se modificado recentemente na Região Metropolitana de Goiânia e mesmo em diversos municípios de Goiás, recolocando na ordem do dia as condições objetivas e subjetivas de massificação das lutas de resistência nas ruas, deve-se ter certa parcimônia quanto a essa conclusão, posto que a massificação se apresenta como uma possibilidade operada sob um contexto histórico-estrutural profundamente desfavorável à classe trabalhadora e à juventude.


As condições de mobilização em Goiânia e no interior de Goiás


Em Goiânia, as condições de mobilização são melhores quando comparadas com o interior do estado. Inicialmente, trata-se de uma cidade inserida em um contexto metropolitano com uma população de 2,7 milhões de pessoas, cujas atividades políticas convergem para Goiânia. As forças políticas de esquerda estão presentes em maior número e melhor organizadas. Também é onde estão presentes os sindicatos com maiores estruturas e as sedes das centrais sindicais efetivamente atuantes. Por fim, a trajetória de cinco anos de atuação do Fórum Goiano, materializando uma experiência já histórica de unidade, coordenação política das lutas e confiança política mútua, também concorrem decisivamente para que as condições de mobilização nesta conjuntura sejam melhores quando comparadas às do interior do estado.


As condições de mobilização nos municípios do interior de Goiás são muito desfavoráveis quando se tem em vista a ocupação das ruas com movimentação de massa. Em termos estruturais, faz-se presente a hegemonia política, econômica e ideológica do agronegócio, à qual se soma formas de repressão abertas – com ações de intimidação – e veladas – por exemplo, com medidas de governos municipais dificultando mobilizações e com recusa de contrato para a reprodução de materiais de divulgação e agitação que confronte a extrema direita e o agronegócio, e/ou sua sobre-apreciação de valor, impedindo que sejam reproduzidos. São poucas as forças políticas presentes nos municípios e, via de regra, pouco organizadas em pequeno número de militantes.

Poucos são os sindicatos de base estadual que efetivamente possuem estruturas sindicais com capilaridade, e dentre aquelas que possuem, muitos se deparam com grandes obstáculos para assegurar um funcionamento orgânico dessas estruturas. Em diversas localidades as atividades ainda são construídas sobre a capacidade de iniciativas espontâneas de populares, individualmente ou em pequenos grupos. Por fim, poucos municípios possuem um fórum, frente ou coordenação de movimento e luta regional, e um número ainda menor desenvolve atuação de forma perene. Em termos propriamente conjunturais, verifica-se em muitos municípios do estado uma elevada letalidade da pandemia acompanhada de baixo índice de vacinação, o que frequentemente restringem as mobilizações a atos simbólicos e carreatas.


A atual conjuntura e as condições de mobilização em Goiânia e no interior do estado reiteram a necessidade de retomada da discussão e de iniciativas concretas, no âmbito do Fórum Goiano, acerca da sua estadualização e da interiorização das mobilizações em curso. Processos que podem contribuir para o desenvolvimento de melhores condições materiais e político-organizativas para o avanço das lutas no interior do estado. Construção que necessariamente tem que envolver, dentre outras entidades e movimentos, sindicatos estaduais e coletivos de juventude.


Portanto, a conjuntura vivida pelas forças sociais do campo popular na Região Metropolitana de Goiânia e em diversos municípios de Goiás prenuncia grandes expectativas quanto à massificação e à ação efetiva das entidades e movimentos na construção da contra ofensiva da classe trabalhadora orientada pelo Fora Bolsonaro, pela luta contra o projeto do golpe de Estado de 2016 e contra as forças políticas e sociais que o apoiam. Todavia, deve se ter clareza quanto às ações de construção das condições objetivas e subjetivas que permitam a classe trabalhadora e a juventude superar limitações histórico-estruturais para ir muito além do estágio atualmente alcançado.


A afirmação da bandeira vermelha e a movimentação política pelo Fora Bolsonaro



Créditos: Ariel Franco


Conforme assinalado, a bandeira Fora Bolsonaro foi se impondo nas construções das mobilizações dos dias 29M e 19J em face do aumento do número de mortes, da falta de vacina e das denúncias trazidas pela CPI da Covid. Deve-se ainda realçar a importância da consolidação do Movimento Fora Bolsonaro enquanto grupo construído por meio da ação organizativa de diversos coletivos de partidos, para a afirmação dessa palavra-de-ordem e a consequente movimentação política. A centralidade do Fora Bolsonaro e uma movimentação política exclusivamente pautada por ele foi acompanhada de tensão entre o Movimento Fora Bolsonaro e o Fórum Goiano, que por sua parte articulava as lutas contra a Reforma Administrativa e contra os cortes de verbas na educação com o Fora Bolsonaro, vacinação já e “comida no prato”.


João Pires afirma que o Fórum Goiano procurou não tencionar com o Movimento Fora Bolsonaro, almejando construir em unidade os atos correspondentes. Saliente-se que integrantes do Fórum Goiano que também compunham o Movimento Fora Bolsonaro, como Lúcia Rincon, Michely Coutinho e Sidiana Soares, assumiram a função de mediação entre os grupos para a superação do tensionamento e pelo fortalecimento da unidade. Tal realidade culminou em uma dinâmica política na qual as reuniões da Executiva do Fórum Goiano foram sendo “ampliadas”, com a participação de integrantes do Movimento Fora Bolsonaro que veiculavam veementemente a referida palavra-de-ordem e movimentação política.


Conforme dito por João Pires, esse contexto demandou, por parte da Coordenação do Fórum Goiano e de entidades e movimentos presentes desde a sua formação em 2016, uma atenção redobrada no sentido de tratar com grande cuidado as diferenças, de respeitar todas as intervenções políticas, de lidar melhor com leituras à “esquerda” e à “direita” no âmbito do Fórum Goiano a medida que se tem ampliado os setores nele representados, tendo a organização adquirido maior visibilidade. Assim, em que pese inclusive ocorrências pontuais de atritos, em particular um momento muito tenso, no contexto de construção do 19J, com uma intervenção agressiva por parte de um dirigente de entidade sindical – que curiosamente, não somente não foi repreendida, quanto recebeu apoio em seu “conteúdo” –, os atos foram articulados em uma ampla unidade.


João Pires salientou que a amplitude assumida pela bandeira e movimentação política do Fora Bolsonaro concorreu para o abafamento de pautas fundamentais em disputa. Chamou a atenção para o fato de que a escandalosa privatização da Eletrobrás – tramitada por meio de Medida Provisória, atropelando estudos técnicos que apontam para a gravidade que essa privatização acarretará em termos de elevação do custo da eletricidade, da perda de coordenação e controle centralizado do sistema elétrico nacional e atualmente judicializada junto ao STF –, a Reforma Administrativa (PEC 32) que desmantelará o Estado – e os cortes de verbas para a educação passaram um tanto quanto à margem das pautas centrais do 29M e 19J, centrada no Fora Bolsonaro, complementada com auxílio emergencial, vacinação já e “comida no prato”.


Helga Martins, que também concorda com essa leitura, compreende que esse processo pode estar relacionado a diversas questões, como o fato do Governo Bolsonaro agudizar ainda mais a crise política, econômica e social que o golpe de Estado e seu projeto aprofundou, a aposta de muitos partidos em desgastar Bolsonaro com vista na eleição presidencial de 2022 e o foco da luta centrada contra o Governo Bolsonaro viabilizando trânsito com forças de centro direita tendo em vista a alianças policlassistas em 2022. Também compreende que o grande peso que coletivos identitários (feministas, LGBT e de negras e negros) do PT e PSOL, com as chamadas “pautas de costumes”, fortemente presentes na construção do Movimento Fora Bolsonaro e na afirmação da bandeira e movimentação política Fora Bolsonaro, de um lado, e um dado espontaneísmo e ativismo político que o Fora Bolsonaro acarreta quando propalado de forma não articulada à luta contra o projeto do Golpe de Estado e pela reverão das contrarreformas, de outro lado, também concorreram para o abafamento de pautas fundamentais em disputa.


Também afirma que “trazer para a pauta do Fora Bolsonaro agenda que escancara os interesses do empresariado, dos banqueiros e vencer o genocídio pelas ruas com um projeto delineado para a classe trabalhadora é prioritário: tirar Bolsonaro por meio de negociatas “por cima” sem alterar em nada a correlação das forças políticas constituirá a continuidade da pauta de ataques às trabalhadoras e trabalhadores, bem como a continuidade de uma aposta falida na institucionalidade do jogo eleitoral de 2022”. Leitura idêntica também é realizada por Vinicius Gomes.


Certamente, a ocupação das ruas em atos massivos pode forjar condições para uma necessária greve geral na perspectiva de um projeto que derrube Bolsonaro-Mourão-Guedes e, também, a agenda ultraneoliberal de ataques à classe trabalhadora.


Disputas táticas, eixos políticos e calendário de lutas


As mobilizações do 29M e do 19J foram construídas sobre campos táticos distintos em termos nacionais, embora de forma unificada. Assim, o calendário de lutas que se abrirá a partir do início de julho agregará disputas mais intensas no que tange a definição do próprio calendário, das bases sobre as quais se construirão atos unificados e dos eixos e bandeiras políticas que os orientarão.


Os campos táticos não são facilmente caracterizáveis, posto que posicionamentos distintos se fazem presentes nos partidos políticos do campo popular (PT, PC do B, PSOL, PSTU, UP e PCB), nas Centrais Sindicais (CUT, CTB, CSP-Conlutas, Intersindical-Instrumento de Organização e Luta da Classe Trabalhadora e Intersindical-Central da Classe Trabalhadora) e nos movimentos e entidades de juventude, feministas, negro, LGBTI, camponeses, ambiental, indígena e de direitos humanos, articulados a partir das suas organizações representativas. Esses posicionamentos podem inclusive assumir configurações particulares nos estados e localidades. Inicialmente, cabe recuperar as distintas táticas que permeiam as forças políticas que integram o campo popular.


A primeira tática visa desgastar continuamente Bolsonaro – doravante compreendido como tal o seu governo, aliança governista e movimento bolsonarista –, mas não derrubá-lo, mantendo-o desgastado, com vista à eleição presidencial de 2022. Essa tática prevê a construção de uma frente ampla social já agora, e político-eleitoral policlassista em 2022, integrando inclusive representantes de frações burguesas oposicionistas. Tática seguramente hegemônica no campo popular, claramente veiculada e dominante na Frente Brasil Popular.


A segunda tática tem em vista enfrentar Bolsonaro e outras forças de extrema direita por meio da intensificação das lutas sociais, na perspectiva de efetuar socialmente uma alteração da correlação de forças para muito além da disputa eleitoral em 2022. Visa alcançar uma modificação de uma correlação de forças social e política que permita vitórias eleitorais – com realce para a Presidência da República e para a modificação da correlação de forças no Congresso Nacional, mas é claro que também almeja vitórias eleitorais nos executivos e legislativos estaduais – que viabilizem governos de esquerda, bancadas parlamentares amplas e influência nas demais estruturas do Estado, norteados por um programa que contemple reformas estruturais e base social para efetivá-lo. Essa tática pressupõe a suplantação da hegemonia atualmente presente no campo popular, mas preservando todas as forças políticas e sociais do campo popular por meio da construção de uma frente ampla de esquerda (ou frente única de esquerda). Tática que, embora não hegemônica, tem ampliado significativamente a sua influência mediante o seu crescimento no interior de partidos do campo popular com representação parlamentar e em movimentos sociais populares do campo e da cidade, veiculada e dominante na Frente Povo Sem Medo, mas também presente na Frente Brasil Popular.


A terceira tática tem em vista a busca pela ofensiva em permanência contra Bolsonaro e a derrocada do projeto do golpe de estado de 2016 – que concretamente implica na reversão das contrarreformas, em uma ruptura com a lógica de lutas sociais e políticas voltadas em última instância para a modificação da correlação de forças institucionais e confiante quanto ao seu poder transformador. Essa tática também advoga a frente ampla de esquerda (ou frente única de esquerda), mas com a esquerda socialista anticapitalista e antiimperialista buscando alcançar a hegemonia social e política no seu interior, presente na Frente Povo Sem Medo e na articulação mobilizatória recém criada Fora Bolsonaro Povo na Rua.

A programação do 3º Dia Nacional de Mobilização Fora Bolsonaro para 24 de julho (24J) gerou intensa contestação de amplos setores do movimento, sobretudo daqueles situados no campo da segunda e terceira tática. Daí surgiram propostas de construção de atos unitários nos dias 03 de julho (3J), e 13 de julho (13J), com preservação do 24J. Em reunião realizada no dia 29 de junho, o Fórum Goiano em Defesa de Direitos Democracia e Soberania reportou as diversas articulações para os atos a serem realizados nas cidades do interior do estado a partir do 3J, sendo elas: Anápolis, Cidade de Goiás, Rio Verde, Goianésia, Caldas Novas, Jataí, Catalão, entre outras. As entidades que o compõem se solidarizaram com os preparativos, empenhando seu compromisso com a denúncia pública dos crimes do Governo.


Ao final da reunião, o Fórum pautou a conjuntura, concluindo a necessidade de mobilização crescente das bases sociais. Com tal perspectiva, seus integrantes estabeleceram a panfletagem em pontos de fluxo com vistas à massificação dos atos. No 3J, terceiro sábado de manifestações em pouco mais de um mês, a marcha pelo Fora Bolsonaro manteve o trajeto dos outros dois atos, saindo da Praça Cívica pela avenida Araguaia, passando pela rua 4 e chegando à Praça do Trabalhador pela avenida Goiás. Lá encerraram o enorme ato de unidade e luta contra o neofascismo genocida, ultraliberal, corrupto e assassino, representado pelo Governo Executivo brasileiro.


Apesar de haver sido marcado com apenas uma semana de antecedência, o 3J manteve o número de manifestantes mobilizados em Goiânia e aumentou a agitação no interior do estado, com mais cidades empenhadas pelo “impeachment já”. A nível nacional e internacional, segundo a Central de Movimentos Populares (CMP), o 3J mobilizou 800 mil pessoas em 312 cidades pelo Fora Bolsonaro. A coordenação dos atos deve considerar a necessidade de mobilizações constantes e com curto espaço de tempo, para que consiga, efetivamente, organizar a enorme indignação popular contra o genocídio, na medida em que consiga pautar os problemas mais urgentes do país relacionados à política econômica e sanitária capaz de nos tirar deste atoleiro em que o golpe de 2016 nos colocou.


As muitas datas em sequência, que estimulam a mobilização permanente não devem ser vistas como uma barreira ao aprofundamento das pautas de luta. Atravessamos uma grande crise do capital, incapaz de garantir a sua própria reprodução, um momento onde “‘os de baixo’ não querem mais e ‘os de cima’ não podem mais continuar a viver da antiga maneira…” (LENIN, 1915). É neste movimento de massas e crise sistêmica que as entidades poderão renovar suas táticas, agregar novos quadros, rejuvenescer e elevar o patamar da luta rumo ao socialismo, para derrotar a barbárie bolso-nazista.


A Agência de Notícias Cerrado (ANC) dará continuidade às análises da conjuntura, ao levantamento de informações acerca das mobilizações de julho e nos meses seguintes, com atenção à agenda Fora Bolsonaro e às lutas contras as reformas neoliberais, que empobrecem ampla maioria da população e favorecem uma pequena minoria sem compromisso com o país ou com a democracia.


Autores: Walmir Barbosa e Renato Costa


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