Copa América: o futebol no centro da política latinoamericana

Atualizado: 10 de jul. de 2021

Torneio centenário seria disputado na Colômbia, passou para Argentina e caiu como uma luva no colo do Brasil, com governantes sedentos por novas pautas que não girem em torno de CPI, pandemia e corrupção.



Nesta semana chega ao final a controversa Copa América. O torneio, comercialmente lembrado por ser o “mais antigo do mundo”, nasceu em 1916, na Argentina, e, para entender como nasce, é preciso fazer uma breve digressão para o contexto político-social do país platino naquela época. Com o processo de independência ocorrido em diversas nações da América Hispânica ao longo do século XVIII, os países sul-americanos, no qual se inclui o Brasil, começaram a dar seus primeiros passos no desenvolvimento de uma indústria local, em economias onde até então só havia a agroexportação convivendo com profissões liberais e artesanais urbanas. Com o surgimento da indústria, uma classe operária urbana começa, por sua vez, a nascer também.


Na Argentina, esse processo leva as elites criollas a cisões e disputas pelo poder que culminam na aproximação de frações dessa classe a militares de baixa e média patente, líderes eclesiásticos da Igreja Católica e setores médios e operários urbanos, que fundariam a União Cívica Radical, em 1891. Esse partido policlassista chega ao poder em 1916, ano da primeira Copa América da história, com a eleição de Hipólito Yrigoyen, líder popular e que disputava os mesmos votos do Partido Socialista Argentino. Yrigoyen foi responsável por abolir o vestibular e criar diversos institutos e faculdades na Argentina, fruto da luta estudantil em Córdoba que ficou conhecida como Reforma Universitária de Córdoba, criar a estatal petrolífera  Yacimientos Petrolíferos Fiscales e regulamentar o descanso semanal aos domingos.


Importante destacar, contudo, que o governo Yrigoyen nomeou apenas três ministros de seu partido, mantendo todos os demais postos de comando do Poder Executivo nas mãos de membros da elite agrária local, e que o fomento à produção industrial foi duplamente fruto da pressão exercida pela luta popular travada pelos operários urbanos que compunham parte de sua base eleitoral, mas também à queda no poder de compra dos produtos agrícolas sul-americanos na Europa por conta do engajamento daqueles países na Primeira Guerra. Além disso, Yrigoyen ficou marcado por reprimir greves violentamente com auxílio das Forças Armadas. Era um tipo que podemos associar, guardadas as devidas proporções, a Getúlio Vargas: um personagem fruto das tensões entre uma elite dominante formada pelos tradicionais colonos oligarcas e um incipiente setor burguês industrial com aspirações desenvolvimentistas, que tem como resultante dialética um governo de modernização conservadora, que traz a classe trabalhadora para si de forma subalternizada. Mas voltemos ao futebol.


Foi o mesmo Yrigoyen que, para comemorar o centenário da independência argentina, em 1916, convida as seleções do Chile, Brasil e Uruguai para um torneio entre os dias 2 e 17 de julho, a ser disputado no Estádio Gimnasia Y Esgrima, em Buenos Aires. Foi ali que a seleção uruguaia começou seu domínio pioneiro no esporte bretão por aquelas décadas, vencendo o torneio de forma invicta, inclusive com uma vitória de 2x1 sobre o Brasil, o mesmo placar que calaria o Maracanã na final da Copa de 50. O título foi conquistado após um empate por 0x0 contra a seleção anfitriã, em jogo disputado no Estádio Alsina y Colón (atual Presidente Perón, casa do Racing de Avellaneda). O jogo teve como árbitro o técnico da seleção chilena, por falta de juízes disponíveis.


O sucesso do torneio e o interesse de integração das incipientes federações de futebol dos países participantes levariam à fundação da Conmebol concomitantemente ao torneio, em 9 de julho de 1916. A ideia de unificar as federações brasileira, argentina, chilena e uruguaia em uma confederação continental partiu de um diretor de jornais montevideanos e membro do Partido Colorado do Uruguai, Héctor Rivadavia. Ele era uma figura influente no meio futebolístico local, responsável por acompanhar a seleção de talentos que compunham a celeste, além de ter trânsito facilitado na política local, o que o levou a ser um dos principais articuladores da organização da primeira Copa do Mundo, realizada em 1930 no Uruguai. Além disso, foi presidente da Associação Uruguaia de Futebol, presidente do Montevideo Wanderers, tradicional clube da capital, e presidente da própria Conmebol de 1916 a 1926. Sob a gestão de Rivadavia, o Uruguai foi colecionando taças e mais taças nas Copas Américas disputadas ao longo das décadas de 20 e 30: foram 7 troféus. Até hoje, segue sendo a seleção que mais venceu o torneio, com 15 títulos.


Além disso, a celeste se sagrou bicampeã Olímpica em 1924 e 1928 - reconhecidos nessa última semana pela FIFA como títulos equivalentes à Copa do Mundo - campeã da primeira edição da Copa do Mundo, em 1930, além da famosa Copa no Brasil, em 1950. Aqui, cabe um breve parêntese sobre essas conquistas olímpicas: o futebol nessa época já girava muito dinheiro na Europa, mesmo sendo jogado, em geral, por atletas amadores e em competições cujos participantes eram sempre do próprio continente. Com a Conmebol recém surgida, os apoios políticos e financeiros que vinham principalmente do governo Colorado no Uruguai e Radical na Argentina, as seleções desses dois países passaram a ter dinheiro para pagar as excursões marítimas para a Europa e participar dos jogos olímpicos a partir dos anos 20. O Uruguai fez valer seu favoritismo e, na estreia de não europeus no futebol olímpico, faturou o ouro em 24, em Paris, com uma campanha de 5 vitórias em 5 jogos, marcando 20 gols e sofrendo apenas 2. Na comemoração do título, uma vitória com autoridade por 3x0 sobre a Suíça, os jogadores deram uma volta completa na pista de Atletismo do Estádio Olímpico de Paris, eternizando a expressão volta olímpica. Além de Argentina e Uruguai, o Egito também participou dos jogos de 24, sendo as 3 primeiras seleções não europeias a disputar um torneio internacional oficial de futebol. Em 1928, as mesmas 3 seleções voltariam a figurar como as únicas não europeias nos jogos de Amsterdã, e a história se repetiria não só aí, mas também com o Uruguai ganhando de todo mundo e sendo campeão invicto, dessa vez com um 2x1 sobre a Argentina.


Ao longo das décadas do século XX, a Copa América se consolidou como o principal torneio sul-americano de seleções, ocorrendo de forma irregular ao longo dos anos (algo que continua até os dias de hoje, com a promessa que, a partir dessa edição, será de 4 em 4 anos, coincidindo com o calendário da Eurocopa). Esta já é a 47ª edição do torneio, e todos os seus campeões são sul-americanos – apenas Venezuela e Equador nunca a venceram. A partir da década de 90, a Conmebol passou a convidar seleções da América do Norte e Central, filiadas à Concacaf, de modo que já tivemos o México sendo vice-campeão em 2001, Honduras eliminando o Brasil e vencendo o Uruguai na disputa do 3º lugar nessa mesma edição de 2001, e os Estados Unidos chegando a duas semifinais, em 1995 e 2016. Panamá, Costa Rica, Jamaica e Haiti também já disputaram a Copa, bem como Japão (em 1999), e o Catar, em 2019, como parte dos esforços da Conmebol de promover a seleção sede da próxima Copa do Mundo.


Portanto, a história de surgimento e permanência da Copa América ao longo das décadas mostra como o futebol e a política sempre se misturaram, e como as classes dominantes sempre o utilizaram como forma de domesticação da paixão cultural popular pelo esporte. Embora possa se discutir se o futebol tem ou não raízes populares, pelo fato de, no início do século XX, ser um esporte comum em clubes náuticos, de regatas, críquete e outros esportes tradicionalmente praticados pelas elites, tanto aqui na América como na Europa, fato é que ele é a principal forma de atividade física de inúmeros povos, sobretudo do dito “terceiro mundo”, e a paixão por um clube esteve historicamente vinculada às formas de identificação cultural com o bairro/cidade e a classe social de que cada um provém. Digo esteve, porque é fato que atualmente, com a modernização do futebol, os jogos de grandes clubes europeus sendo transmitidos semanalmente nas TVs, e a crise financeira e técnica por qual passam inúmeros times tradicionais aqui no Brasil, é cada vez mais comum jovens torcerem para clubes europeus, e isso é ainda mais comum em outros países da América, Ásia e África onde o futebol local não tem tradição.


"Sem paz não há futebol" - Colômbia. Crédito: Jhon Paz/Xinhua

Copa Covid América


A Copa que ficou na corda bamba. A história desta edição pode ser contada por muitos pontos de vista: sob a ótica dos interesses comerciais milionários que envolvem cartolas de federações, multinacionais e governos, e que passam por cima da maior tragédia recente da história latino-americana: segundo dados da Reuters, a América do Sul, México e Caribe têm 1.293.000 de mortos por Covid-19, 1/3 do total mundial, que já está em 4 milhões. O Brasil, sozinho, responde por 40% desses quase 1 milhão e 300 mil mortos. Quando falamos apenas de América do Sul, os dados ficam ainda mais vergonhosos: temos 1 milhão de mortos e o Brasil é responsável por mais de 51% delas.


Também podemos contar essa história pela ótica do povo colombiano: originalmente programada para ser disputada no país cafetero, a onda de protestos contra a carestia de vida, desemprego, por uma reforma do sistema policial local e, mais recentemente, pela criação de um sistema público de saúde – na Colômbia, a dependência dos planos privados gera dificuldades de acesso a hospitais durante a pandemia e tem atrasado o plano nacional de imunização – foi responsável por demover a Conmebol da ideia de realizar a competição no país. Importante destacar brevemente: o povo colombiano sai semanalmente às quartas-feiras, em atos puxados pelas centrais sindicais e entidades estudantis locais. Até agora, já há 51 mortes decorrentes dos confrontos.


Por fim, contaremos sob a ótica que prevaleceu: a de Jair Bolsonaro, dos militares, na figura do ministro general Luiz Eduardo Ramos, além dos governadores do Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso e Rio de Janeiro. Após uma negativa inesperada e de última hora da Argentina, em 31 de maio, até então a sede substituta da Colômbia, o governo brasileiro se reuniu com a Conmebol e acertou a organização do torneio. Luiz Eduardo Ramos convocou uma entrevista coletiva em Brasília, um dia após a negativa da Argentina, e anunciou os estados acima mencionados como sedes da Copa.


Chama atenção o fato de que Ramos não é ministro ou secretário de esportes ou algo assim, ele é ministro-chefe da Casa Civil. Chama atenção o fato de que os estados escolhidos não seriam as opões mais óbvias para um torneio internacional de seleções. Chama também atenção que Ronaldo Caiado, que no início da pandemia tinha se colocado como um opositor nacional ao governo Bolsonaro, tenha rapidamente voltado a seu estado original e se colocado como um dos mais fiéis aliados táticos (e quiçá estratégicos) do presidente.


Todos os elementos que circundam a açodada escolha do Brasil como sede da Copa América demonstram de forma solar como política e futebol se misturam pornograficamente. Os militares e seu projeto próprio de poder, que pode ou não contar com o bolsonarismo para tal, querem grandes eventos e certamente olham para a Copa América com o mesmo saudosismo que olham para a Copa de 1970, quando sacaram o comunista João Saldanha do banco da seleção por conta de sua orientação ideológica, mesmo sendo o arquiteto do esquadrão tricampeão mundial, e depois usaram o título como instrumento de propaganda para a ditadura. Com a Copa América, ainda se beneficiam do fato de a SBT ser a emissora oficial, que recebeu mais de 9 milhões e 300 mil reais de verba de publicidade federal no ano passado. SBT e Record se tornaram as emissoras com mais investimentos da União desde que Bolsonaro assumiu a presidência, em troca de apoio que muitas vezes é explícito.


Todos os elementos que circundam a açodada escolha do Brasil como sede da Copa América demonstram de forma solar como política e futebol se misturam pornograficamente

Caiado, por sua vez, tem como projeto de poder permanecer como coronel da política local assim como sua família tem feito nos últimos séculos. Viu na possibilidade de organizar um torneio sem público e com pouco interesse popular aqui no estado como fonte de dividendos, além de demonstrar sua fidelidade a Bolsonaro e aos militares. Acaba representando, desta feita, a histórica e umbilical relação latifúndio-militares que atravessa a história do nosso país desde o surgimento das forças armadas, como braços armados usados para garantir a defesa da terra dos colonos e sesmeiros contra invasores estrangeiros e nativos – indígenas num primeiro momento e, num segundo, escravos. Prova disso, e um fato que merece ser sempre lembrado, é que, de todas as frações proprietárias do capital, a do agronegócio foi a primeira a, em 2018, apoiar publicamente a candidatura de Jair Bolsonaro e Hamilton Mourão.


Há que se citar também os interesses dos cartolas dos clubes locais. O presidente do Atlético Goianiense, Adson Batista, foi o único dirigente dos clubes daqui de Goiânia que se pronunciou oficialmente sobre a realização da Copa América. “O Estádio Antônio Accioly está à disposição da Conmebol para disputa da Copa América 2021. Nós temos o Governador Ronaldo Caiado e o Prefeito Rogério Cruz para entenderem os inúmeros benefícios da disputa de um campeonato de grande porte em nosso estado”, publicou em seu Twitter. O Goiás e o Vila Nova se mantiveram silentes, embora o Goiás tenha cedido o Complexo da Serrinha para a seleção brasileira treinar quando veio jogar contra o Equador. Adson sabe que o Atlético é hoje uma das principais portas de visibilidade do estado de Goiás e da cidade de Goiânia para o Brasil, e parece, como bom cartola que é, usar disso para se aproximar politicamente dos governos de plantão e fortalecer seu clube, muito embora não esconda suas preferências pela direita.


Há, também, por óbvio, os interesses da CBF por traz do torneio ser aqui disputado: num mês em que o presidente da entidade é afastado por denúncias graves de assédio sexual e moral contra uma funcionária, em que o ex-presidente Marco Polo del Nero, quadro orgânico dos setores mais tradicionais da CBF, volta a dar as caras por meio de seu braço direito, o Coronel Nunes, atual comandante interino da CBF, ter a Copa América no Brasil significa uma demonstração de força e poder para a entidade. Curioso é que a própria Copa América – as de 2015 e 2016 – foi uma das provas que levou à investigação de del Nero e José Maria Marin por privilegiarem acordos com determinadas empresas de marketing esportivo no Brasil e na Argentina em troca de propina. Hoje, Marin se encontra em prisão domiciliar e del Nero está banido permanentemente do futebol pela FIFA, podendo vir a ser preso se sair do país, uma vez que as condenações penais foram dadas nos Estados Unidos⁵.


É dessa miríade de interesses que nasce este torneio que, no momento, está com a final definida entre Brasil x Argentina a ser disputada sábado (10) no Maracanã. O saldo esportivo? Mais um torneio para a seleção brasileira se autoenganar, reforçando que seu futebol é de alto nível para a América do Sul, mas de nível altamente questionável para enfrentar os grandes europeus, os reais rivais nas Copas do Mundo. Para a Argentina, a chance de conquistar sua 15ª taça e se igualar ao Uruguai como maior vencedora do torneio, além de Messi enfim ganhar um título pela seleção, algo inédito e que o permitiria se igualar a Cristiano Ronaldo, campeão com Portugal da Eurocopa pela primeira vez em 2016.


Saldo político? Difícil dizer. Qualquer analista mediano sabe que movimentos de poder necessitam de mínimo respaldo do povo para serem efetivos. Por mais que haja diversos interesses na realização dessa competição conforme debatido, os torcedores brasileiros estão sinceramente muito mais preocupados em acompanhar seus times do coração do que em prestar atenção numa seleção que já os abandonou faz tempo, além, é óbvio, de sobreviver a uma pandemia que já ceifou a vida de mais de 520 mil pessoas. A mesma pandemia que contaminou pelo menos 198 trabalhadores da organização da Copa América, sendo que 137, como era de se esperar, são de hoteleiros, motoristas e toda a rede de profissionais que não fazem parte da bolha a que atletas, comissões e árbitros são submetidos.


Um aspecto desse saldo político que parece estar tomando corpo, é a retomada das ruas pelos movimentos sociais, sindicais e de juventude. Esta Copa América, assim como foi a Copa das Confederações em 2013 e a Copa do Mundo de 2014, são catalisadores que impulsionam uma agenda nacional e periódica de protestos de rua contra pautas que extrapolam e muito o futebol: se lá atrás foi contra o aumento no preço da cesta básica, a precariedade dos serviços públicos e as remoções forçadas diante dos nababescos investimentos em estádios, hoje é pelo impeachment do governo Bolsonaro-Mourão e pela construção de um novo protagonismo popular nas lutas contra o desemprego, a carestia e a revogação das emendas constitucionais que institucionalizaram a austeridade e o fim de diversos direitos trabalhistas. A partir do futebol, esse galvanizador da paixão nacional por excelência, os trabalhadores brasileiros retomam um conjunto de embates que estavam na pauta do dia e foram suspensos por conta da pandemia.


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