Feirantes em Goiás: da precarização à precariedade

No dia 25 de agosto foi comemorado o Dia Nacional do Feirante. A data é uma homenagem à primeira Feira Livre oficialmente reconhecida pela administração pública do Estado de São Paulo, realizada neste dia do calendário, no ano de 1914.


Neste ano de 2021, em meio ao aumento generalizado dos preços e à queda massiva da demanda por causa do desemprego e da pandemia de Covid-19, que tirou a população das ruas e alterou seus hábitos de consumo, os motivos de celebração são poucos. Porém, pelos mesmos motivos, neste momento cresce a importância da manutenção das feiras, livres e especiais: para garantir a segurança alimentar, o consumo de bens semiduráveis e para o convívio social nos centros e nas grandes periferias das metrópoles brasileiras.


Banca de verduras em feira livre no bairro Bougainville em Anápolis. Foto: Samuel Leão

Na cidade de Goiânia organizam-se 122 Feiras Livres, segundo o cadastro da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico (SEDETEC). Essa categoria abarca feiras onde se vendem verduras, frutas, carnes, comidas, utensílios domésticos, artesanato, roupas e acessórios.


São feiras que abrangem todo tipo de produto, mas tem a função de mercado aberto voltada especialmente para o abastecimento alimentar doméstico, através da venda de produtos in natura, ou seja, secos e molhados sem preparo prévio. Elas estão espalhadas pela cidade, funcionam nos turnos diurnos ou noturnos e abrangem todo o território metropolitano de Goiânia.


Já as chamadas Feiras Especiais cadastradas na municipalidade da capital somam 26 e são voltadas para lazer, alimentação para consumo imediato ou um tipo específico de produto. As feiras especiais costumam ocorrer no turno noturno, mas algumas seguem jornadas contínuas que chegam a somar mais de 72h de exposição, a exemplo da Feira Hippie contígua às Feiras da Madrugada, o que implica na necessidade de alternância de pessoal e períodos exaustivos de trabalho não regulamentado.


Segundo a SEDETEC, “a maior e mais antiga feira da cidade, é a Feira Hippie”, que reúne 6.884 feirantes cadastrados e “é considerada a maior feira livre do Brasil e da América Latina”.


A grandiosidade da Feira Hippie se explica pelo fluxo de revendedores vindos de todo o país, em busca de produtos têxteis produzidos pela indústria goiana e, geralmente, comprados no atacado. Cerca de 40 ônibus estacionam na feira a cada semana, trazendo comerciantes, sobretudo, das regiões Norte e Nordeste do país, o que faz dela uma feira especial, específica de têxteis, voltada para revendedores.


Além da capital, as tradicionais feiras de bairro acontecem em todas as cidades de Goiás, oferecendo uma grande diversidade de alimentos e produtos, em especial frutos da culinária tradicional, vindos da zona rural e do interior.


A cidade de Anápolis, município com mais de 400 mil pessoas, conta com dezenas de feiras, praticamente todos os dias da semana. Em uma pequena feira da Zona Norte, encontramos o Senhor Nivaldo e sua esposa, um perfil recorrente de feirantes: os que fazem feira para complementar a renda.


Nivaldo e esposa em feira livre no bairro Bougainville em Anápolis. Foto: Samuel Leão

O perfil dos feirantes é complexo, mas, via de regra, tem início como uma atividade de renda alternativa. Pessoas montam suas bancas em espaços vazios na feira e, a depender da saída, retornam ou procuram outras feiras. Vania Cristina da Silva, coordenadora da feira da Redenção em Goiânia, classifica esses comerciantes ocasionais como pinga-pinga.


O ofício é tão antigo quanto o próprio comércio. Os feirantes são ambulantes que trabalham com venda, revenda, beneficiamento e produção para comercialização. No caso de Nivaldo e sua esposa, sua trajetória como feirantes se iniciou após a aposentadoria, como modo de gerar renda extra e se manterem ativos durante a terceira idade.


Apesar de bem humorado, Nivaldo, que faz feiras há cerca de um ano no bairro Bougainville e na porta do supermercado que leva o nome do bairro, diz trabalhar com a produção e venda de pastel e caldo de cana por temer o adoecimento e morte.


Já Wesley Dutra Lopes é funcionário público do município e sempre manteve uma renda para além do concurso para honrar seus compromissos. A princípio, um emprego em regime de CLT, que foi sucedido pela feira que faz há cerca de sete anos.


Wesley, que trabalha com queijos e doces em duas feiras na capital e uma em Aparecida de Goiânia, diz gostar da possibilidade de fazer seus próprios horários, mas afirma que não tem tempo fácil.


“As maiores dificuldades são em tempos chuvosos e na época de falta dos produtos como, por exemplo, nas secas, quando, no meu caso, aumenta bastante os derivados do leite” afirma o queijeiro.


Ele destaca, ainda, que, apesar da tradição das feiras em Goiás, há um certo descaso por parte do poder público. Nem todas têm banheiros instalados e os que têm costumam ser de má qualidade ou muito sujos. Ele sente falta de uma presença mais ativa do Sindicato dos Feirantes, que não pressionam a prefeitura para melhorar as condições de trabalho dos comerciantes.


De fato, na Feira Especial da Redenção, onde Vania Silva é coordenadora, seu trabalho se dá pela ligação estatutária da feira com a Associação de Moradores, a qual Vania preside. Seu trabalho principal consiste em garantir o funcionamento de toda a eletricidade da feira, sendo de sua responsabilidade contratar eletricista, preparar as instalações e fazer os reparos necessários na fiação.


O vácuo institucional deixado pelo poder público, que não proporciona infraestrutura e apoio logístico, dificulta o trabalho de feirantes que chegam a ficar quinze horas no local, contando do início da montagem até o fim da feira. O resultado é o descontentamento, especialmente no momento de pagar as taxas de inscrição na prefeitura e no sindicato e os serviços de energia e segurança utilizados, como destaca Vania.


As feiras se tornam, assim, locais de trabalho sob condições adversas. Frequentemente, representam alternativas para trabalhadores que as procuram como alternativas ao mundo do trabalho que lhes fechou as portas ou simplesmente não proporcionam as condições que assegurem as necessidades básicas de uma família, tendo que buscar nela a complementação de renda.


Apesar da importância crucial para o abastecimento das cidades, a forma de negócio nas feiras não garante nenhum tipo de segurança aos feirantes, que devem assumir todos os riscos do comércio, sem previsão de retorno fixo ou remuneração previamente estabelecida.


Os feirantes são, portanto, trabalhadores que empreendem no comércio por meio do trabalho familiar, arriscando todo seu capital a cada dia, reiterando diariamente o drama daqueles que estão imersos em uma economia capitalista que individualiza os riscos e monopoliza os ganhos.


Em que pese as dificuldades enfrentadas, deve-se registrar que os feirantes estabelecem, entre si, relações de troca de produtos, de amizades, de apoio mútuo e de laços que se caracterizam em certa medida como comunitários. Portanto, apesar do capitalismo, do neoliberalismo, do esgarçamento do Estado e do individualismo extremo, há relações sociais fundadas na solidariedade social que ainda persistem em nossos dias, e os feirantes são responsáveis pela preservação de parte delas.


Por: Renato Costa, Igor Barreto e Samuel Leão

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