Meu amigo Kaiowá

Um relato, em primeira pessoa, sobre a realidade e a união de etnias pela defesa da vida tradicional.


Cena do Filme “Terra Vermelha”. | Foto: Divulgação.

Me preparava para uma excursão a trabalho, já no fim do primeiro ano de pandemia. Desde o ano anterior eu estava envolvido com os Xavantes, após uma visita intensa às suas terras e por aproximar-me de meus familiares nativos, acabei direcionando também minha atuação jornalística.


Após um longo processo, do qual fiz parte e através do qual se consolidou uma campanha de saúde, prevenindo a contaminação e mortes entre os aproximadamente 30 mil Xavantes, fui convidado a fazer o registro da excursão, que tinha como objetivo distribuir itens de segurança, vestuário e alimentos pelas reservas do Mato Grosso, além de registrar as instalações e contribuições feitas ao longo do ano. Era apenas uma semana de serviço, na qual percorremos várias horas de asfalto e ainda mais horas de terra para adentrar as comunidades.


A equipe, que inicialmente era formada apenas pela jornalista, assessora parlamentar, militante indígena e fluente em xavante (eu diria até naturalizada Xavante) Ana Paula Sabino, e por mim, que acompanharia registrando tudo em vídeo e ajudaria nos pormenores que fossem necessários, logo ganhou um forte aliado. O ator, cineasta e produtor Guarani Kaiowá, Kiki, um rapaz que veio do Mato Grosso do Sul para somar em nossa missão. Eu estava ansioso para conhecê-lo e aprender mais sobre sua produção, técnicas e principalmente cultura.


Vindo do Sul, fez uma parada em Brasília, onde se reuniu com o coletivo de produção audiovisual indígena do qual faz parte, a Ascuri, uma iniciativa que reúne profissionais de diversas etnias, trabalhando para o ensino e a profissionalização de jovens indígenas, além de produzirem belíssimos registros histórico-culturais e denúncias, que dão voz a povos silenciados e invisibilizados.


No dia de nossa partida, me levantei animado e ao mesmo tempo esperançoso, saímos no domingo de eleição, e com a maré da direita tomando os cargos públicos, seguindo o exemplo do atual, e nem um pouco exemplar, presidente Jair Bolsonaro, fui às urnas cheio de esperança de novas reviravoltas. A preocupação do Governo Federal com o povo chegou a níveis minúsculos, principalmente para as minorias, difundindo o negacionismo, que mantinha o presidente na posição confortável de fingir que nada estava acontecendo, que essa é apenas uma “gripezinha”, enquanto seu povo morre à míngua.


Apesar do otimismo, minha esperança era infundada, mesmo com o número de vereadores indígenas e quilombolas eleitos batendo records, as prefeituras foram inundadas não só por uma onda de direita, como por fortes participações de partidos também recordistas, mas nesse caso é em escândalos de corrupção condenados. Os principais dentre eles são: O DEM, MDB, PSDB e PP. Graças a essa corja, são várias as ações de violência contra os povos tradicionais, uma das principais que vem transitando pelo STF ainda é o chamado Marco Temporal, que determina a demarcação das terras apenas para aqueles povos que estavam presentes na terra após a Constituição de 1988.


Ignorando completamente as várias razões, a maior parte inclusive violenta, para as centenas de etnias se deslocarem, às vezes expulsos. Invasões para exploração ilegal, seja de madeira, agropecuária, agricultura, garimpo ou outras, nunca foram tão incentivadas no Brasil como agora. À partir daí já se percebe como andam as relações entre Governo e povos indígenas.


Ainda assim, na manhã que deixamos Goiás e adentramos o Mato Grosso, o clima de animação e amizade estava presente, quase como se aquele deslocamento não estivesse acontecendo em função de uma pandemia e representasse risco de vida não só para os nativos visitados, mas também para todos nós e nossas famílias. Na realidade, o risco era principalmente nosso, pois passamos por uma preparação na qual seguimos as medidas de distanciamento e nos mantemos em casa, além de realizarmos os exames/testes adequados.


Sua origem


Quando lhe perguntei de onde ele era e como era por lá, ele sorriu instintivamente, como qualquer pessoa ao falar de sua própria casa, seja ela a mais violenta das favelas ou a mais harmônica das vilas. Me respondeu que era do Mato Grosso do Sul, ao lado da fronteira, e que sua região era uma enorme mistura de povos.


Haviam Bolivianos, Paraguaios, Paulistas, Guaranis, Mato Grossenses, Kaiowás, Nhandevas, Goianos, Terenas, Kadiwéu e ainda outras etnias, todas reunidas naquele pequeno espaço. Compartilhando espaço nas cidades, reservas, latifúndios, beiras de estrada e reocupações. Conforme ele me contava, percebi a semelhança com o filme no qual ele iniciou sua carreira.


Em “Terra Vermelha”, filme de Marco Bechis, com participação de Matheus Nachtergaele, gravado em 2008, Kikito faz o papel de um jovem Guarani-Kaiowá “sem terras”, que busca reocupar um latifúndio, sob o comando de seu pai, que coordena um pequeno grupo de seu povo acampado na beira da estrada. Alguns “brancos” oferecem ajuda, que é o caso do personagem do Matheus, contudo uma ajuda de trabalho apenas, integrando o Kaiowá em sua lógica de vida ao invés de respeitar e apoiar a própria, deles mesmos. E claro, a grande maioria dos brancos por ali são fazendeiros e seus funcionários, os chamados “peões”, e eles não apenas deixam de prestar ajuda como costumam estar armados e são uma ameaça constante à vida dos Kaiowá.


Kikito aliviou a cena, mas me contou uma realidade próxima demais da construída nas telas. Graças à luta de seus avós, Kiki não passou por esses momentos de difícil transição, nos quais o povo busca reconquistar sua terra, que já está sob o mando dos fazendeiros. Seus avós passaram por isso, percorrendo longas distâncias, acampando e resistindo a ameaças, portanto ele cresceu com seu espaço delimitado, o que de maneira alguma era uma garantia de segurança ou alimento, mas já é o começo da dignidade devida.


Por possuir uma vida estável, e pela vinda da equipe de filmagem e todas as oportunidades que a circundam, o jovem Kiki iniciou sua carreira em um longa-metragem e pôde estudar e se nutrir de informação. Aos poucos foi adentrando o território do audiovisual, esse não possuía jagunços ou soldados de prontidão, e à partir dele pôde se lançar em territórios mais conflituosos e onde seus “parentes”, expressão comumente usada pelos nativos brasileiros para se referir à outros nativos, precisavam de mais ajuda.


Ao longo da viagem, ele me ensinou um pouco do que aprendeu em sua vivência de câmera e produção in loco, em várias aldeias, e me revelou situações dignas de um Pulitzer ou algo que o valha. O experiente Kikito, agora em seus trinta e poucos anos, me revelava as diversas vezes que se reuniu com amigos para ir à aldeias mistas, grandes cidades tradicionais nas quais se misturavam etnias e a desigualdade imperava, gerando ambientes agitados e inseguros, bem como a periferia de uma grande metrópole.


In loco


Em certa ocasião, ele foi munido de sua câmera até uma aldeia na qual havia notícias de violência e possíveis crimes, tudo transmitido oralmente e também por redes sociais pela região. Após se aventurar atravessando terras “governadas” pelos barões e coronéis, tendo de se esconder e esconder seu equipamento, chegou na aldeia a tempo de ver uma viatura de polícia adentrando o lugar. Ele descrevia com extrema naturalidade, e eu sentia o peso quase apocalíptico da cena, lembrando as comunidades autogovernadas do Rio de Janeiro. A viatura adentrou o círculo de casas tradicionais e logo foi cercada, rodeada de pessoas. Os policiais ousaram sair do carro e foram massacrados, mortos ali mesmo, pelas mãos e ferramentas rústicas que ocupavam as mãos, os estiraram no chão e retiraram cada peça de roupa, coturnos, meias, cuecas, cassetetes e principalmente armas. Minutos depois, aparece no céu um helicóptero de busca, à procura dos finados policiais que não respondiam aos chamados pelo rádio e buscando descobrir o que havia ocorrido por ali.


Depois disso a polícia foi proibida de adentrar as comunidades, apenas em casos de urgência nos quais fosse chamada, e ainda assim com certa preparação, de preferência acompanhada de autoridades ou representantes do povo local e de reforço. E não fui só eu que percebi a semelhança entre o ambiente que me era descrito e as comunidades, comandadas pelo poder paralelo do Rio.


Após os primeiros dias de viagem, já tivemos tempo de nos conhecermos e compartilhamos certa rotina de afazeres, passamos o dia na caixa do caminhão devido a um acidente na estrada de terra. Tivemos tempo de bater papos descontraídos, entoar cânticos tradicionais xavantes e kaiowás, como se fossem mantras, compartilhar a água e o medo da estrada, além do principal modo de interagir e se reconhecer dos homens, o compartilhamento do silêncio, a companhia muda, singela e ainda confortável.


À noite, trocamos mais histórias enquanto jantávamos, Ana Paula nos deleitava com relatos de diversas etnias das quais ela conhecia, histórias engraçadas de amigos, conflitos ou curiosidades culturais de todo um povo. Ela se recordou que certa vez Kiki visitou o Rio, e assim iniciou-se mais um relato dele imergindo em outro pedaço de sociedade independente e auto gerida, se lançando no risco.


Espera-se que um jovem Kaiowá seja um alvo fácil, seu povo é conhecido pelo pacifismo, muito sinceros e sentimentais, os kaiowás rezam ao invés de lutar desde que foram incomodados, ou “descobertos” pelo Europeu, e até antes disso, em conflitos com outros povos. E pela fé eles possuem grande semelhança com o povo de matriz africana que ocupa os morros, em suas expressões, seja o candomblé, a umbanda ou outros, há também o diálogo direto com os elementos da natureza, e a confiança nos “santos” que os acompanham, apesar do povo africano ter uma raiz mais combativa e de resistência violenta, inclusive sendo reconhecidos pela capoeira, ambos se expõe ao risco pois é assim que a vida se apresenta e porque possuem fé nos seus guias espirituais, fé na vida.


Assim, Kiki subiu com dois amigos, também nativos, em um dos morros tradicionais do Rio de Janeiro, apenas com seu celular, a cara e a coragem. Após percorrer alguns lances de becos e escadas, desaguou em um baile funk, onde foi recebido com um copo de bebida e cigarros, em meio aos jovens e homens armados, com calibre grosso e rádios walkie-talkie em cada cintura. Ao fim da noite, seus amigos tinham sumido, um com uma garota e outro sabe-se lá onde, e lá se foi o jovem Kiki, bêbado e desnorteado após horas sob o som do tamborzão, perambular pelo morro em busca da saída ao amanhecer, de volta pra casa.


Apesar de aventureiro, ousado e progressista, o querido Kiki nunca perdeu a consciência de quem é e de sua função para com seu povo. Ao longo de nossa viagem, era reconhecido e tido como celebridade por diversos Xavantes, sempre com seu jeito tranquilo e solícito de ser, ostentando um belo sorriso entre bochechas redondas, com certo ar místico de quem é brasileiro, boliviano e ainda muito mais.


E com essa consistência, em ter sua memória e suas raízes sólidas, acaba por carregar consigo a realidade de seu povo. Me contava histórias de rezadores que espantavam predadores e parasitas da aldeia apenas com longas orações, cantadas ao sabor do vento e ao embalo do chocalho. De habilidades metamórficas, amores românticos entre homens e animais, aldeias embaixo d'água e felinos sobrevoando os céus noturnos. Mas também tinha forte em si as experiências do mundo dos brancos, em especial herdadas de seu pai.


Me contou, já do meio para o fim de nossa viagem, como seu pai certa vez fugiu de uma viatura policial, que queria tirar-lhe a pinga que havia comprado, estacionando o carro e correndo para dentro de uma igreja católica. Ele sabia que eles não entrariam ali, e sentou-se num banco ao pé do altar, abraçado em suas garrafas e com a cabeça encurvada para o chão, como se estivesse em oração.


O que falta de violência e reatividade aos nativos brasileiros, se comparados aos afrodescentes, sobra de paciência, e esse foi mais um caso em que venceram pelo cansaço. Passadas algumas horas, a polícia aborreceu-se e deu meia volta, desistindo da emboscada eterna na porta da igreja. E assim esclarece-se a maior estratégia de batalha dos kaiowá, a fé e a paciência.


A esperteza de um povo que vê o mundo pelos olhos de uma criança, que acredita que cada animal e planta têm um dono e compõe um grande organismo vivo que é o planeta. Pedir licença e conversar com a natureza, em uma relação harmônica, onde ambos querem apenas seu espaço e sua vida natural. Tais características podem ser notadas, de uma forma ou de outra, em todas as etnias brasileiras, cada uma ao seu modo.


E é nessa relação de cúmplice do mato que ele me soltou mais uma história que não me sairá da memória. Novamente de seu pai, a luz dos olhos de um garoto em qualquer sociedade, e dessa vez o motivo não era outro. Havia comprado pingas, e como no Mato Grosso do Sul, pela grande concentração de nativos e seu consumo desenfreado, a venda de bebida alcoólica é informalmente proibida para os indígenas, foi novamente seguido pela polícia.


Adentrou a estrada de terra, deslizando em fuga no carro, e ao longo da estrada parou ao lado de uma daquelas poças de lama enorme, que se formam após longas chuvas e assemelham-se a um pequeno lago. Abraçou suas garrafas e entrou na poça, indo até o seu centro, onde a água alcançava seu abdômen. Sentou-se afundando na lama, e de lá ficou esperando a polícia.


Quando chegaram, começaram a lhe dar ordens, para que saísse imediatamente da água ou eles iam buscá-lo e não seria bom pra ele… mas o homem se manteve impassível.


Conforme eles lhe gritavam que viesse até eles, que saísse da água, ele apenas respondia que não ia, e que se quisessem, eles que teriam de vir buscá-lo, eles que viriam até ele. E assim o tempo correu, o Sol foi se pondo e logo os policiais desistiram. Ele se levantou da poça, completamente encharcado, e seguiu seu caminho para casa normalmente. Mais uma vitória da paciência, da consistência nativa.


Além do Jovem


Entre viagens, filmagens, carregamentos e descarregamentos, tomávamos água e comíamos trocando histórias ou piadas regionais. Ele às vezes se queixava da falta de tereré, já eu procurava geléias de mocotó, me contava sobre o Pé-de-garrafa, figura pós-humana, que vaga pelos campos do Sul, amaldiçoada, e eu citava o Pai-do-mato, que assobia e assombra os cerrados, igualmente pós-humano. Concordávamos em várias coisas, como no fato dos pequis do Mato Grosso serem bem maiores e mais carnudos que os de nossas terras, ou dos Xavantes terem uma ótima visão, e serem todos sisudos.


Ana Paula nos explicou que eles eram ensinados assim, criados como guerreiros tradicionais, levam a sério. Além de namorarem o chão, um modo de manter a mente centrada e se proteger na natureza, tinham de amar a terra antes de olhar para possíveis companheiras. Respeitamos eles ainda mais.


Apesar dos riscos do trabalho, podíamos nos debruçar no parapeito dos grandes rios de Barra do Garças, o Rio das Garças e o Araguaia, e no fim do dia a sensação de conhecer outras realidades por alguns momentos, viver outras vidas e estabelecer trocas, comunicação, a realização tomava o ambiente coletivo. E aquele era o trabalho habitual de ambos, os dois que compunham minha equipe já eram experientes, me senti bem direcionado, é como a Ana diz: “com os povos tradicionais sinto que os problemas do mundo não são do mundo, sinto que tenho direção, raiz e razão, não me sinto perdida.”


E assim também me parece, independente de pormenores da fé de cada um, ver o mundo cheio de espíritos e relações com um mundo imaterial é uma das bússolas do olhar kaiowá, contudo eu não preciso viver e fazer parte desses processos e contatos para perceber a eficiência deles, perceber a qualidade da relação que se estabelece com o ambiente, a vida ao redor e consigo mesmo, é inspirador. E isso não muda a forma do Jovem Kiki de se integrar na sociedade, como um profissional ativo, moderno, flexível e ao mesmo tempo muito consciente, que faz o que ama, para aqueles que ama, e se reinventa a cada produção, a cada pessoa que trespassa, assim como eu, se une à sua constelação de inspirações e inspirados, de parceiros e motivos para correr.


Quase uma figura mitológica, o jovem Kikito é um ancestral do futuro, que invade o imaginário popular munido de seu imaginário milenar, sem o menor receio de descobrir novos imaginários, novas formas de comunicação, de soar infantil, rural, maduro ou urbano demais, não satisfeito apenas com as várias línguas que domina, toma meios artísticos, tecnológicos e até rotineiros de comunicar e ser o que é. Ademilson Concianza Verga, um jovem consciente e apaixonado pela reinvenção de sua história ancestral, a qual usa para reinventar também a realidade e construir novos caminhos, novas formas de viver na sociedade atual.


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