O apagão da ENEL

Mais uma vez o prenúncio do período de chuvas demarca um triste momento para a Região Metropolitana de Goiânia: a interrupção constante do fornecimento de energia elétrica. Recentemente, alguns bairros e setores da capital e entorno amargaram até três dias sem fornecimento, causando uma infinidade de prejuízos econômicos e sociais. Mas os problemas não estão restritos à Região Metropolitana, e os moradores de todo o estado reconhecem a péssima qualidade do serviço prestado pela ENEL, empresa estatal italiana que atualmente é responsável pelo fornecimento de energia elétrica em todo Goiás.


A privatização da Companhia Energética de Goiás (Celg), foi a primeira realizada pelo governo ilegítimo de Michel Temer, em conluio com o então governador Marconi Perillo (PSDB), em 2016. À época, a italiana ENEL foi a única empresa a apresentar uma oferta, e tal fato se deu apenas após os governos Federal e estadual reduzirem o valor de venda em 35%. O processo de leilão e efetiva venda foi concretizado em meio às enfadonhas e recorrentes promessas de “reverter o valor arrecadado à projetos de infraestrutura". Passados cinco anos da atuação da estatal italiana em Goiás, que atende 98% do estado, os problemas multiplicam-se.


As regiões rurais e mais distantes dos centros urbanos atravessam gravíssimos problemas de fornecimento de energia. Em 2019, regiões próximas à Goiatuba chegaram a ficar 16 dias sem energia elétrica, e produtores rurais registraram grandes prejuízos, como foi à época relatado, por exemplo, por representante da Cooperativa Mista de Produtores de Leite (Complem). Apesar da propaganda positiva que a empresa faz de seu próprio serviço, em 2021 o número de reclamações explodiu, forçando o PROCON a abrir um processo administrativo contra a distribuidora. As reclamações sobre quedas de energia, mais frequentes quando comparadas à 2020, também representam o não cumprimento das metas de melhoria que foram acordadas entre a empresa e o governo goiano.


O descumprimento das metas, quando avaliado de maneira genérica através da estatística, escondem uma triste realidade para muitas pessoas. A recente falta de energia tem atrapalhado a manutenção de atividades de saúde em plena pandemia. Dias atrás, o Centro de Saúde Cidade Jardim Michele, no setor Cidade Jardim, teve o fornecimento cortado, e a vacinação contra COVID-19 que ocorria no local foi interrompida. Pacientes crônicos que recebem tratamento em suas casas também ficaram sem energia, correndo o risco de falecer. Ainda recentemente, a falta de energia comprometeu o fornecimento de água em toda a região leste da capital por mais de 17 horas, afetando também ao menos mais um município. A incompetência da ENEL também comprometeu outros tipos de atividades, como a escolar. Escola Kalunga em Monte Alegre passou cinco dias totalmente sem energia, e depois do apagão passou a receber energia apenas em “meia-fase”. O resultado foi o apodrecimento de produtos para a merenda das crianças.


O descaso da estatal italiana não ocorre apenas no fornecimento de energia. Em junho deste ano o pátio da empresa em Goiânia, que fica no setor Leste Universitário, pegou fogo e foram necessárias ao menos dez viaturas do Corpo de Bombeiros para resolver a situação. Um mês depois do incêndio, em agosto, um trabalhador morreu durante manutenção em uma estação. Atualmente, mais de 80% dos trabalhadores que prestam serviços à ENEL são terceirizados.


Chama a atenção da Agência de Notícias do Cerrado (ANC), que ainda assim, o governo estadual, agora nas mãos de Ronaldo Caiado (DEM), busca privatizar também a Celg GT, empresa pública operadora de quatro usinas de produção de energia, contando com participações em outras treze, e que ainda administra quatorze subestações de transmissão por todo o Estado. O leilão está marcado para o dia 15 de outubro. Sabemos a quais interesses servem a precarização do serviço prestado e a privatização de empresas públicas, e com certeza não é o povo trabalhador que será beneficiado por tais medidas. Cabe à partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais e estudantis, além das organizações da sociedade civil, demandar o fim das privatizações e a reestatização da Celg, mas agora sob controle dos trabalhadores e da população que utiliza do serviço. O avanço do neoliberalismo tende a transformar Goiás em terra arrasada à serviço do agronegócio. É contra esse processo, que encontra na privatização da produção e distribuição de energia uma de suas expressões, que devemos lutar.

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