Púlpitos-palanques: a constância da presença evangélica na base de apoio a Bolsonaro



Há pouco mais de uma semana, o presidente Jair Bolsonaro esteve outra vez em Goiânia, sendo a décima terceira visita programada ao Estado de Goiás pelo chefe do executivo. Em sua agenda, novamente houve espaço para a participação em um evento evangélico, dessa vez, o 1º Encontro Fraternal de Líderes Evangélicos realizado na Assembleia de Deus do Setor Campinas. Na ocasião, o presidente voltou a condenar as medidas de isolamento social, acenou ao agronegócio goiano e à convocação de líderes religiosos para os atos de 7 de setembro, e fez críticas aos protestos indígenas contra o Marco Temporal.


Em sua primeira visita, em maio de 2019, Bolsonaro participou da Convenção Nacional das Assembleias de Deus, quando criticou a equiparação entre homofobia e racismo pelo STF e mencionou a intenção de indicar um evangélico como ministro do Supremo. Como se sabe, a promessa foi cumprida em julho passado, através da designação do pastor presbiteriano André Mendonça, ex-advogado geral da União e Ministro da Justiça de seu governo. Já em junho deste ano, esteve em um Culto Interdenominacional das Igrejas de Anápolis, e em discurso espontâneo no púlpito da Church Connection, afirmou ter provas materiais de que fora eleito no primeiro turno de 2018. Provas que não foram apresentadas na live de 29 de julho.


Bolsonaro em púlpito da Assembleia de Deus de Campinas (Foto: Marcos Nunes Carneiro)

O que se percebe em cada uma dessas ocasiões é o reforço da estratégia bolsonarista em manter uma parcela importante de sua base de apoio fidelizada. Já é suficientemente reconhecido que o apoio evangélico foi fundamental para a eleição de Bolsonaro em 2018. As análises daquele momento, como a realizada pelo professor doutor em demografia José Eustáquio Diniz Alves, sentenciavam que o voto evangélico garantiu a eleição de Jair Bolsonaro. O autor da análise indicava que de todos os segmentos religiosos, a margem preponderante em favor de Bolsonaro se deu no eleitorado evangélico, com mais de 11 milhões de votos de diferença em relação a Fernando Haddad – diferença essa superior à de votos totais entre os dois candidatos.



Com tais questões em mente, é preciso recuperar que de acordo com o Censo do IBGE de 2010, Goiânia possuía 32,4% de sua população confessando-se evangélica, a segunda maior porcentagem em relação às capitais do Brasil. Isso é ainda mais significativo quando se considera o número de 422.455 evangélicos em Goiânia, total superior a toda a população de Rio Branco (336.038 habitantes), a capital com maior percentual de evangélicos em 2010 (39,77%). Ainda que não tenhamos os dados oficiais do IBGE de 2020, o Datafolha indicava a importância da população evangélica no cenário nacional, totalizando 31% da população brasileira, percentual próximo aos 28% que se diziam evangélicos em Goiás em 2010. A proporção é importante quando analisamos o resultado das eleições de 2018 em nosso estado: 74,20% dos eleitores escolheram Bolsonaro em Goiânia e 65,52% em Goiás, sendo os evangélicos parte fundamental desse eleitorado.


Para além, porém, de qualquer generalização, os discursos de Bolsonaro aos evangélicos indicam uma reação às últimas pesquisas que assinalam que a desidratação da base de apoio do presidente também atinge esse segmento da população. Em levantamento de junho deste ano, Bolsonaro já aparecia atrás de Lula nas intenções de voto entre os evangélicos, o que levou o antropólogo Ronaldo de Almeida (Unicamp) a reforçar que o alinhamento político deste grupo religioso vai além da pauta moral, carro chefe da campanha presidencial de 2018. Contudo, o mesmo analista destaca na entrevista acima mencionada que o território evangélico é aquele em que o presidente perde menos apoio quando consideramos a deterioração de sua base em nível geral.


No cenário da corrida eleitoral para 2022, as disputas pelo voto evangélico se acirram. Mesmo que o cenário do ano que vem possa ser um pouco mais heterogêneo em termos de apoio, é de se esperar que Bolsonaro, nos próximos meses, aprofunde o discurso moralizante que conquista a parcela fundamentalista evangélica, e procure garantir a vitória nesse eleitorado. Assim, não se espera uma mudança na postura do presidente em relação às estratégias que o levaram ao poder há três anos. É provável que o tom não será amenizado, o que pode e deve reforçar as cisões e mobilizações no meio evangélico por parte daqueles que não coadunam com a aliança entre o creem ser o Evangelho e o bolsonarismo. No púlpito-palanque da Assembléia de Deus de Campinas, Bolsonaro afirmou que “Deus me colocou aqui e somente Deus me tira daqui”, referindo-se à presidência do país. Ele sabe que Deus não aperta as teclas das urnas que – felizmente – permanecem eletrônicas, e fala como Messias ao séquito que o venera. Mas se esquece de que existem muitas vozes dissonantes no evangelicalismo nacional, que intimidadas pela surpresa em 2018, buscam desde então a ressonância articulada capaz de disputar a homofonia do discurso público evangélico nesse país. Mesmo que para isso, tenham que destruir os altares erigidos ao bolsonarismo nos púlpitos-palanques Brasil afora.


Rafael Borges – doutor em História Cultural, graduando em teologia e professor do IFG Campus Goiânia.



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