Sobre a necessidade dos historiadores e historiadoras



No dia 19 de agosto, estamos a comemorar o Dia Nacional do Historiador. Data ainda ignorada pela imensa maioria das pessoas, mesmo entre aquelas/es com acesso a uma escolarização formal consistente, mas compreensível, pois estão ocupados/as a trabalhar para ter o pão, a sobreviver a essa crise de feições bíblicas e a se confrontar com uma escalada ultra-conservadora, liberal autoritária e fascista, no país. Todavia, a Agência de Notícia do Cerrado (ANC), reconhecendo a importância desta data para pontuar questões do nosso presente em relação ao ofício do historiador e sua ciência, sobretudo em face da nossa conjuntura, oportunizou-me este espaço de reflexão ensaístico. Assim, me dei à liberdade de trazer algumas reflexões, escapando de um texto acadêmico formal e tomando como base a palestra “A relação entre a História e Memória na constituição do fazer histórico”, ministrada por mim., a que passo a discorrer.


“Desde que o mundo é mundo, o homem guarda fragmentos de passados (fotos, objetos, emoções, livros, sensações, cartas, filmes, cheiros). O passado é tudo aquilo que você se lembra, imagina que se lembra, se convence do que se lembra ou finge que se lembra”. Com estas palavras Vicente, personagem do filme “o vendedor de passados”, demarca dois atributos fundamentais dos homens e das mulheres: a localização no tempo e a capacidade de lembrar/rememorar episódios do mesmo. Tempo e memória, instâncias latentes e constituidoras de nossas experiências. Sobre a primeira, é possível salientar, estamos no tempo e produzimos percepções sobre o tempo o tempo todo. Apesar da redundância aparente, ele é a categoria que nos permite localizar, situar e definir as nossas identidades, a exemplo, se digo, “quando jovem tinha cabelos longos e vermelhos”.


Já, sobre a segunda, é impossível não a ver como um recurso, exercício de trazer à tona o que nos marcou outrora: lugares que frequentamos, pessoas que se foram, especialmente em tempos de tantas perdas, ela também é o conforto para o luto. Se do ponto de vista das experiências individuais, em nossa vida cotidiana, a memória/lembrança é o recursos que mobilizamos para colorir, demarcar, nuançar (o uso de variados verbos procura demonstrar a pluralidade e riqueza da própria ação) do que passou, o que dizer destas instâncias em suas dimensões sociais? Em quais circunstâncias os exercícios de memória são empreendidos? Se trouxermos à tona temas de nosso presente, poderemos nos questionar: nos processos de “monumentalização” dos espaços públicos, qual memória deseja instituir? Na crítica, na derrubada ou na ressignificação das estátuas e monumentos que ocupam as nossas cidades, delineiam-se outras memórias? Nos episódios de incêndio ao Museu Nacional, à Cinemateca, ao Museu da Língua Portuguesa, ou ainda, às florestas, o que se perde? Nas datas, nas comemorações e símbolos nacionais, quais imagens desejam ser “imortalizadas”? Há “comemoração” ou “rememoração” na retomada, na “releitura” ou na ênfase de determinados episódios do passado? No que se refere à temática das epidemias, quando e porque se falou e se fala tanto da gripe espanhola de 1918? Qual memória ficará do que estamos vivendo? Ou, retomando a psicanalista Vera Iaconelli, e quando tivermos que explicar para as futuras gerações onde estávamos e o que fizemos ao alcançarmos a trágica marca de mais de 560 mil mortos por Covid? Exercício doloroso na feitura destas memórias.


Outra categoria bastante mobilizada para a constituição das identidades coletivas e individuais é o espaço. Assim, cada país, estado e cidade compõe-se de inúmeras particularidades históricas. Não aleatoriamente, em seu belo poema “Perguntas de um trabalhador que lê”, o intelectual alemão Bertolt Brecht indaga, num longo tempo, a construção de Tebas, Babilônia, Muralha da China, Roma, Índia e Espanha. “Territórios”, “paisagens”, “fronteiras”, “local” e “regional” estão entre as terminologias mais utilizadas na busca de compreensão do espaço.


Tempo, memória e espaço, independentemente do campo disciplinar ou teórico, são instâncias inerentes à organização dos indivíduos e das sociedades. Antes mesmo das definições e dos usos das diferentes epistemes, ainda que seja da área das Ciências Humanas, as referidas categorias são constituidoras das pluralidades das experiências humanas. Situando as referidas questões no campo da História, qual é então o “lugar” e a pertinência do trabalho do historiador e da historiadora? Se, em suma, os agentes, o tempo e o espaço têm uma existência mesmo antes de serem escolhidos como objetos de suas análises, qual a necessidade do trabalho dos historiadores e historiadoras? Se especialmente num contexto de mudanças e de aceleração desordenadas diversas narrativas – plurais em seus conteúdos e suportes – produzem interpretações sobre as categorias operatórias de suas abordagens, qual a validade da sua escrita?


A exigência de uma resposta para uma pergunta tão inquietante nos leva a concordar que o resultado de seu ofício evidencia as desigualdades, as contradições e as perspectivas de intervenção de homens e de mulheres que foram violentados ou excluídos em diversos tempos e espaços. Todavia, estes sujeitos, quando eleitos em objetos de investigação histórica – escravizados, operários, camponeses, negros, indígenas, mulheres e homens, população LGBTQI+, etc. –, já demarcaram os seus espaços nas lutas pelo atendimento de suas demandas, isto é, não é uma dádiva dos historiadores e historiadoras a presença destes sujeitos nos livros ou nos textos de História, sem desconsiderar a importância que historiadores e historiadoras ocupam no processo de dar visibilidade às lutas históricas destes grupos para o tempo presente.


Ao mesmo tempo, a indagação sobre a necessidade da História já foi efetivada. Inclusive, num momento de crise e situação limite, o historiador francês Marc Bloch produz um livro com intuito de responder ao seu filho, “para que serve a História?” E ainda nos diz: em momentos de crise, as sociedades questionam o seu passado e sua história. A partir daí outros questionarão, “Como se escreve a História?” (VEYNE) ou “O que fabrica um historiador quando produz História?” (CERTEAU) A discussão sobre a “legitimidade intelectual e social” (REIS, 2011) da História fez-se de modo contínuo e, a depender das circunstâncias, se intensificou.


E os questionamentos não cessam por aí. Assim, as interfaces entre tempo e memória mobilizam as indagações das mais variadas no próprio campo da Teoria da História, entre outras, o que vem para o centro quando falamos em memória? Indivíduo? Coletivo? História? Há distinções entre as ações de lembrar e de rememorar? A memória é recurso interpretativo, é reflexão crítica ou é “caminho” investigativo? Qual a sua importância para a história? O que o acesso à memória traz para a história? Como demarcar suas distinções? (Questão que mobiliza indagações desde o surgimento da História). Onde a memória se materializa? Nas fontes? A memória revela disputas? São plurais? E, fundamentalmente, como pensá-la na dinâmica temporal do passado, presente e futuro? Como dinamizar a memória para o fazer histórico?


Entendo que são questionamentos amplos e que poderiam se desdobrar em temas para muitas reflexões. Todavia, em seu conjunto, trazem um elemento comum, qual seja, como as sociedades lidam com seu tempo e com a sua memória? Problema de ordem fundamentalmente política, mas também epistemológica. Uma não exclui a outra. E não deve mesmo excluir. Neste entre-lugar situa-se a necessidade do trabalho dos historiadores e historiadoras.


Se o questionamento sobre necessidade do historiador foi o “ponto de partida” da escrita que aqui se apresenta, faz-se necessário agora afirmar que seu ofício, ao utilizar de documentos e eleger as temáticas, os “agentes” e os processos, é amparado em elementos de ordem epistemológica e política. Se, conforme alerta Michel de Certeau, a pesquisa não tem um fim, a escrita (o discurso) tem suas próprias exigências. É justamente sob esse aspecto que é necessário dar-lhe um sentido. Se a pesquisa e a escrita não caminham no mesmo compasso, aquela, ainda que não totalmente contemplada por essa, não escapa de sua alçada, isto é, a pesquisa só se torna histórica quando legitimada pelo “lugar” em que é produzida e tal processo só é possível porque se tornou “discurso”.


Em outras palavras, recebeu uma sistematização que a tornou “acessível”. Tal constatação é importante porque uma pesquisa, mesmo que “dependente” de uma escrita, não se esgota nesta instância. Essa constatação é significativa pela própria especificidade do conhecimento histórico, isto é, o seu caráter indireto. Essa particularidade inerente ao trabalho do historiador deve-se associar ao fato de que ele produz algo sobre o “outro”. Dito de outro modo, ao lidar com esse outro, que podemos denominar de passado, o historiador se depara com uma temporalidade que não é sua e com propostas de intervenção que não lhe são próprias, por isso não consegue recuperá-lo em sua “totalidade”. Tal condição não pode desconsiderar a necessidade e validade do seu trabalho.


No momento em que a arte, a cultura e a ciência se encontram em “risco”, faz-se primordial demarcar o “lugar de inteligibilidade” propiciado pelo conhecimento histórico. Como campo disciplinar específico e dispondo de um método, é imprescindível que o trabalho do historiador desmascare as tentativas de negação e de exclusão de perspectivas outras para a compreensão do passado. Conforme salienta Walter Benjamin: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo “como ele de fato foi”. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. [...] O dom de despertar no passado as centelhas de esperança é privilégio exclusivo do historiador convencido de que também os mortos não estarão em segurança se esse inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”.


Esses desafios também devem ser apreendidos em outra perspectiva: a radicalidade da luta de classes em torno da memória hegemônica. Em nosso país, por exemplo, que nos encontramos distantes da superação da memória hegemônica de feições liberais acerca do que ela convencionou chamar “ditadura militar”, eximindo-a de vínculos e relações com as classes dominantes e elites dirigentes, nos deparamos com a força social e política imprevista de leituras que colocam em debate a própria existência dessa “ditadura”.


Assim, essa discussão ocorre num momento em que se completam os 57 anos do golpe de 1964. Ao mesmo tempo, diante de uma crise sanitária, política, econômica e, fundamentalmente, cultural, ocorreram manifestações que, entre outras solicitações, há em alguns cartazes, o pedido de fechamento do Congresso e o retorno do AI-5. Diante da tristeza e do perigo que este episódio traz, não é preciso nem dizer a necessidade e a urgência da dimensão epistemológica e política do trabalho dos historiadores e historiadoras em permitir que os temas da ditadura civil-militar não só apareçam nas reflexões acadêmicas, nas produções artísticas, nos livros e materiais didáticos de história, mas que façam um tensionamento constante com o próprio tempo presente.


Autora: Maria Abadia Cardoso - doutora em História Social e professora do IFG Campus Goiânia.


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