Trabalho Escravo e Neoliberalismo em Goiás

No dia 22 de outubro correu a notícia do resgate de trabalhadores escravizados em Água Fria de Goiás (GO). Fruto de uma operação do Ministério Público, da Polícia Rodoviária Federal e da Defensoria Pública da União, que ocorreu entre os dias 13 e 19 de outubro, teve curso o maior resgate de trabalhadores escravizados de 2021 quando libertou 116 pessoas, entre elas diversos adolescentes e até uma criança de treze anos. O grupo era composto por trabalhadores de São Paulo, Minas Gerais, Maranhão e Piauí, que foram atraídos para Goiás sob pretexto de emprego e acabaram sendo escravizados.

Tendo que se acomodar em dormitórios precários, mal construídos e repletos de defeitos estruturais, os trabalhadores e trabalhadoras ainda eram obrigados a pagar pela utilização dos instrumentos de trabalho e tinham que cumprir longas jornadas de trabalho com fome, ampliando o risco de doenças e até de morte. A tarefa do grupo era separar a espiga de milho da palha que a envolve, para que esta fosse utilizada na fabricação de cigarros, e recebiam cinco reais por quilo do material. Ninguém tinha contrato de trabalho nem carteira assinada.

A princípio, não é fácil descobrir quem foi o responsável pela escravização, ou seja, à quem pertence o empreendimento escravista, pois as “contratações” são “terceirizadas” várias vezes para que seja difícil rastrear quem demandou esse tipo de trabalho. No caso de Água Fria de Goiás, a frente de trabalho escravista pertencia a José Haroldo de Vasconcelos, dono da maior fabricante de cigarros de palha do Brasil, a Souza Paiol.

Por mais que tal situação cause choque, a realidade do trabalho escravo é muito mais comum do que gostaríamos de imaginar, sobretudo com o agravamento da crise econômica causada pela pandemia. Segundo relatório do Ministério Público do Trabalho, divulgado em 2021, Goiás teve 75 flagrantes de trabalho escravo em 2020, ficando atrás apenas de Minas Gerais (351 casos), Distrito Federal (78 casos) e Pará (76 casos).

Contrariando o senso comum, atualmente também tem sido mais visível a faceta urbana da escravidão moderna. Casos como o de Madalena Gordiano, escravizada durante 38 anos em plena cidade de Uberaba, também se reproduzem em Goiás. Em Anápolis, no último mês de julho, uma mulher foi resgatada após 30 anos de escravidão.

Os casos de Madalena, escravizada aos 8 anos, e da mulher não identificada de Anápolis, escravizada aos 12, apontam que a juventude também está sucetível à escravidão. Na cidade de Jataí, em agosto deste ano, 54 trabalhadores e trabalhadoras de São Paulo e do Piauí foram resgatados de outra fazenda de separação de palha para a fabricação de cigarros, sendo três ainda adolescentes.

Engana-se também quem acredita que a escravidão está restrita à empreendimentos privados. Em novembro de 2020 sete trabalhadores foram libertados de situação de escravidão enquanto trabalhavam em uma base da Força Aérea Brasileira, localizada em Anápolis.

A escravidão em empreendimentos privados ou públicos, no ambiente rural ou urbano, envolvendo adultos, adolescentes e crianças é a expressão do quão disseminada está em nossa sociedade a prática do escravismo. Se, por um lado, a crise econômica, social, política e cultural auxiliaram na expansão da hiperexploração do trabalho, por outro lado, a própria sociabilidade brasileira, historicamente marcada pela chaga da escravidão e da autocracia burguesa, reforçam a naturalização de tais casos. A forma como são tratados os trabalhadores e as trabalhadoras brasileiras, sobretudo negros e negras das camadas populares, é parte da perspectiva fascistizante que emana das camadas dominantes e envolve todo o tecido social.

Nesse sentido, não poderíamos ignorar a relação com os recentes casos de escravidão no Brasil e o os gigantescos retrocessos proporcionados pelo Golpe de Estado de 2016, que tem reconfigurado as relações sociais e trabalhistas no Brasil, ampliando a superexploração e a opressão vivenciada pela classe trabalhadora, e que tem na tríade Bolsonaro-Mourão-Guedes seus mais recentes “grandes articuladores”.

A Agência de Notícias do Cerrado (ANC) chama a atenção para a situação periclitante vivenciada pela classe trabalhadora de nosso país, e reivindica que partidos políticos, sindicatos, movimentos sociais e instância da sociedade civil se organizem em torno do combate à escravidão moderna e à recente destruição das condições de vida de trabalhadores, trabalhadoras e juventude


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