Vacina, Pão e... Educação?

Conforme matérias anteriormente publicadas pela Agência de Notícias Cerrado (ANC), diversos movimentos populares têm ocupado as ruas nos últimos meses, os quais objetivam manifestar o repúdio coletivo às medidas ultraliberais que têm constituído o governo liderado por Jair Bolsonaro. No texto “Conjuntura e as Mobilizações de Maio e Junho em Goiás”, Walmir Barbosa e Renato Costa evidenciam que as mobilizações promovidas nos dias 29 de Maio (29M) e 19 de Junho (19J) foram caracterizadas por uma expressiva participação popular no cenário nacional, envolvendo mais de 420 mil pessoas nos atos promovidos nos 26 estados brasileiros e o Distrito Federal. De acordo com o texto “Aspectos Presentes no 3J em Goiás”, a terceira mobilização nacional realizada no dia 03 de Julho (3J) contribuiu com o crescimento das pressões para a abertura do impeachment de Jair Bolsonaro.

Foto: Ricardo Takaiuki

Ao tratarem sobre o contexto do Estado de Goiás, Walmir Barbosa e Renato Costa destacam que as referidas manifestações foram compostas por mais de 07 mil pessoas, sendo promovidas em Goiânia, Anápolis, Jataí e outras cidades interioranas. Atrelado a isto, estes atos envolveram a participação de mais de 100 lideranças de variadas categorias e municípios do Estado. Ao visualizarmos os diversos registros fotográficos realizados durante estas mobilizações, identificamos a recorrência de cartazes que indicam a exigência de “Vacina, Pão e Educação!”. Estas palavras também entoaram os cânticos reproduzidos pelos manifestantes na Avenida Goiás, localizada no centro da capital.

Sabemos que diante da conjuntura atual, em que alcançamos, segundo o Conselho Nacional de Secretários da Saúde (CONASS), mais de 540 mil óbitos por COVID-19, torna-se imperioso reivindicar a vacinação em massa. De acordo com uma pesquisa científica realizada pelo Grupo de Pesquisa Alimento para Justiça: Poder, Política e Desigualdades Alimentares na Bioeconomia em parceria com pesquisadores (as) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e a Universidade de Brasília (UnB), houve um incremento significativo na quantidade de famílias que se encontram em situação de insegurança alimentar no Brasil, correspondendo a 59% dos domicílios pesquisados.

Em outras palavras, podemos declarar que além de estar inserida em um contexto de crise sanitária, em que há uma vivência cotidiana das desoladoras consequências da COVID-19, a classe trabalhadora brasileira precisa lidar com a insegurança alimentar, enfrentando dificuldades severas em garantir a sua alimentação todos os dias. Neste sentido, as reivindicações por “vacina” e “pão” realizadas pelos movimentos populares durante as últimas mobilizações, estão alinhadas com a defesa pela manutenção da vida, opondo-se ao projeto de morte que tem fundamentado as medidas promovidas pelo governo de Jair Bolsonaro.

Há que se considerar que o supracitado projeto também demarca o perecimento da educação, sobretudo, no que diz respeito a uma educação pública, democrática, laica e de qualidade. Não podemos nos esquivar de considerar que este movimento de precarização da educação não é uma especificidade do governo comandado por Jair Bolsonaro, constituindo-se, na verdade, como uma característica inerente ao sistema de produção capitalista. Nesta particularidade histórica, a educação se configura como um instrumento de reprodução da hierarquia social, uma vez que expressa os interesses da classe dominante, limitando o acesso da classe oprimida aos conhecimentos científicos, artísticos e filosóficos. Portanto, “a concentração das riquezas materiais nas mãos de uma classe dominante é acompanhada de uma concentração da cultura intelectual nas mesmas mãos [...]”.

O atual governo tem garantido, com maestria, o avanço dos interesses deste sistema de produção e não demonstra nenhuma preocupação em ocultar esta movimentação. O Decreto N° 10.686, publicado no dia 22 de Abril de 2021 no Diário Oficial da União (DOU), é uma expressão desta política de destruição, uma vez que instituiu o bloqueio de mais de 2,7 bilhões de reais que seriam destinados para a educação pública, contribuindo, cada vez mais, para a sua extinção. Vejam bem, caros leitores e leitoras, na medida em que tornam-se escassos os recursos para a manutenção das instituições de ensino públicas, complexifica-se a precarização de sua estrutura física e pedagógica. Este sucateamento, por sua vez, será tomado como justificativa para entregá-las à privatização, sob o falso pretexto de que serão investidos maiores recursos.

Atrelado a isto, em uma de suas postagens no Blog de Avaliação Educacional, Luiz Carlos de Freitas nos alerta que a educação pública tem se caracterizado como terreno fértil para a multiplicação dos ideais educativos neoliberais, os quais são regidos por uma lógica tecnicista, utilitária e pragmática de formação humana, em que objetiva-se promover a adaptação dos seres humanos às exigências do sistema de produção. O autor ressalta que o cenário pandêmico possibilitou o avanço destas concepções, servindo aos interesses de acumulação das grandes corporações ao ampliar o uso da tecnologia na escola, um movimento que tende a se complexificar com a permanência do ensino híbrido, discussão que pode ser ampliada em uma próxima publicação da ANC.

Conforme mencionamos nos parágrafos anteriores, as reivindicações por “vacina” e “pão” estão radicadas na defesa pela vida, objetivando, sobretudo, garantir a continuidade da vida daqueles que pertencem à classe trabalhadora. Diante disso, cabe questionarmos: em que medida as exigências por uma educação de qualidade estão em coerência com esta defesa? A educação é visceral?

Ao nos apropriarmos da tradição marxiana para analisar os múltiplos determinantes que compõem a realidade objetiva e as relações sociais, torna-se relevante reconhecermos que estamos assumindo, concomitantemente, um projeto educativo, isto é, uma concepção sobre como deve ser realizada a formação dos seres humanos. Para esta perspectiva, cabe aos processos educativos oportunizar que cada indivíduo singular tenha acesso aos conhecimentos historicamente acumulados pelas gerações de seres humanos. Parece-nos imprescindível mencionar Dermeval Saviani, uma vez que este autor nos convida a compreender que o papel social das instituições formais de ensino é oportunizar este acesso, principalmente, ao considerarmos esferas destes saberes que estão situadas para além da vida cotidiana, manifestando-se na arte, na ciência, na filosofia, dentre outras.

A referida concepção não é neutra ou desinteressada, tendo em vista que advoga pelos interesses de uma classe específica. Considerando que existem diferenças no acesso à cultura intelectual no interior do sistema de produção capitalista, deve-se garantir que as instituições formais de ensino públicas sejam lócus de internalização dos conhecimentos artísticos, científicos e filosóficos pelos filhos e filhas da classe trabalhadora. Bodgan Suchodolski ressalta que este trabalho educativo deve ser realizado com o “[...] espírito de luta política pela libertação do homem das cadeias de opressão de classes e deve considerar-se sob o aspecto das grandes perspectivas de uma transformação radical e paralela, das circunstâncias e dos homens”.

Em síntese, a educação carrega o potencial de configurar-se como alimento para a revolução, posto que deve conceder à classe trabalhadora os elementos teóricos fundamentais para analisar criticamente a realidade objetiva, identificando os seus limites, contradições e, ainda, a necessidade de sua transformação radical. Conforme declara Dermeval Saviani, preocupar-se com a educação significa preocupar-se com a elevação do nível cultural das massas, condição sine qua non para a formação da consciência de classe e da transformação social. Com efeito, caros leitores e leitoras, a educação é visceral, configurando-se como dimensão essencial para a existência da classe trabalhadora.



LEONTIEV, Alexei. O desenvolvimento do psiquismo. Lisboa: Livros Horizonte, 1978.


SAVIANI, Dermeval. Pedagogia Histórico-Crítica: primeiras aproximações. Campinas: Autores Associados, 2011.


SUCHODOLSKI, Bogdan. Teoria marxista da educação. Lisboa, 1976.

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